História e Bíblia

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A carta escrita por Jesus


O documento abaixo foi escrito por Eusébio de Cesareia, bispo da igreja cristã de Cesareia; historiador conhecido e respeitado do fim da Antiguidade (265 – 339). Sua obra mais conhecida foi a “História Eclesiástica”, onde ele tentou escrever a história da igreja, dos apóstolos aos seus dias.


O mais curioso de suas pesquisas, seria a carta que Jesus teria escrito de próprio punho, que foi encontrada por ele, e transcrita em sua obra. É claro que é difícil comprovar a veracidade da história, mas devemos no mínimo conhecê-la e considerar que ele (entre os séculos III – IV) estava em questão de tempo muito mais recuado aos dias de Jesus que outros historiadores cristãos. Ainda podemos considerar que dificilmente encontraremos uma discrepância teológica entre os evangelhos e este documento especifico.


Obs: o apóstolo Tomás, que Eusébio se refere, seria o apóstolo Tomé.



DOCUMENTO

(Da obra História Eclesiástica, Livro I, XIII, Eusébio de Cesareia)


[Relato sobre o rei de Edessa]


1. O relato acerca de Tadeu[1] é como segue. A fama da divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, devido ao seu poder milagroso, alcançou a todos os homens, e com a esperança de cura de suas enfermidades e moléstias de toda espécie, atraía a inumeráveis pessoas que habitavam inclusive no estrangeiro, muito longe da Judéia.

2. Nestas condições se achava o rei Abgaro, que reinava excelentemente sobre os povos do outro lado do Eufrates e tinha seu corpo destroçado por uma doença terrível e incurável para o poder humano. Assim que chegaram a ele notícias recorrentes sobre o nome de Jesus e os milagres unanimemente testemunhados por todos, converteu-se em seu suplicante, enviando um mensageiro com uma carta na qual pedia para ver-se livre da enfermidade.

3. Mas Jesus não atendeu de imediato a seu chamamento. Mesmo assim, fez-lhe a honra de uma carta de próprio punho e letra na qual prometia enviar-lhe um de seus discípulos que o curaria da enfermidade e ao mesmo tempo levaria a salvação para ele e para os seus.

4. Não passou muito tempo sem que Jesus cumprisse sua promessa. Depois de sua ressurreição de entre os mortos e de sua ascensão aos céus, Tomás, um dos doze apóstolos, movido por Deus, enviou à região de Edessa Tadeu - que também era um dos setenta discípulos de Cristo - como arauto e evangelista da doutrina de Cristo, e por meio dele se cumpriu o que o Sal­vador havia prometido.

5. Temos de tudo isto testemunho escrito, tirado dos arquivos de Edessa, que naquele tempo era a corte. Nos documentos públicos que neles se guardam e que contém os feitos antigos e dos tempos de Abgaro, encontra-se também o referido testemunho, conservado deste então e até hoje. Mas nada melhor do que ouvir as próprias cartas que tiramos dos arquivos e que, traduzidas do siríaco[2], dizem textualmente como segue:

Cópia da carta escrita por Abgaro, toparca, a Jesus e enviada a Jerusalém pelo mensageiro Ananías.

6. "Abgaro Ucama[3], toparca, a Jesus, o bom salvador que surgiu na região de Jerusalém, saudações: Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e demô­nios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.

7. E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Deus, que descendo pessoalmente do céu realizas estas mara­vilhas, ou és filho de Deus, já que fazes tais obras.

8. Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois[4]."

9. Esta é a carta que Abgaro escreveu, iluminado então por um pouco de luz divina. Mas será bom que escutemos a carta que Jesus enviou a ele pelo mesmo correio, carta de poucas linhas, mas de muita força, cujo teor é o que segue:

Resposta de Jesus a Abgaro, toparca, por meio do mensageiro Ananías.

10. "Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas, acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou[5]. Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença
e trará a vida a ti e aos teus."

11. A estas cartas estava anexado ainda, em siríaco, o seguinte:

"Depois da ascensão de Jesus, Judas, chamado também Tomás, enviou-lhe como apóstolo a Tadeu, um dos setenta, o qual chegou e se hospedou na casa de Tobías, filho de Tobías. Quando se espalhou a notícia sobre ele, avisaram a Abgaro que havia chegado ali um apóstolo de Jesus, como tinha sido descrito na carta.

12. Começou pois Tadeu, com o poder de Deus[6], a curar toda enfermidade e fraqueza, ao ponto de todos se admirarem. Mas, quando Abgaro ouviu falar dos prodígios e maravilhas que operava e de que também curava, veio-lhe a suspeita de se seria o mesmo do qual Jesus falava na carta, ali onde dizia: Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença.

13. Fez pois chamar a Tobías, em cuja casa se hospedava, e lhe disse: Tenho ouvido dizer que veio certo homem poderoso e que se aloja em tua casa. Traga-o a mim. Foi-se Tobías para junto de Tadeu e lhe disse: O toparca Abgaro mandou chamar-me e me ordenou que te levasse até ele para que o cures; e Tadeu respondeu-lhe: Subirei, posto que fui enviado a ele com poder."

14. "No dia seguinte Tobías madrugou, e tomando consigo a Tadeu, foi até Abgaro. Entrou Tadeu, estando ali presentes de pé os nobres do rei, e no momento de fazer sua entrada, uma grande visão apareceu a Abgaro no rosto do apóstolo Tadeu. Ao vê-la, Abgaro se prosternou ante Tadeu, deixan­do em suspenso todos os que o rodeavam, pois eles não haviam contemplado a visão, que só se mostrou a Abgaro.

15. Este perguntou a Tadeu: És tu em verdade discípulo de Jesus, o filho de Deus, o que me disse: te mandarei algum de meus discípulos que te curará e te dará vida? E Tadeu respondeu: Porque é muito grande a tua fé naquele que me enviou, por isso fui enviado a ti. E se ainda crês nele, segundo a fé que tenhas, assim verás cumpridas as súplicas de teu coração.

16. E Abgaro respondeu-lhe: de tal maneira cri nele, que quis tomar um exército e aniquilar os judeus que o crucificaram, se não me tivesse feito desistir o medo ao Império romano. E Tadeu lhe disse: Nosso Senhor cumpriu a vontade do Pai, e uma vez cumprida, subiu ao Pai.

17. Disse-lhe Abgaro: Também cri nele e em seu Pai, e Tadeu disse: Por isto vou pôr minha mão sobre ti em seu nome. E assim que o fez, no mesmo instante curou-se o rei de sua enfermidade e das dores que tinha.

18. E Abgaro se maravilhou, porque tal como tinha ouvido dizer sobre Jesus, assim acabava de experimentar de fato por obra de seu discípulo Tadeu, que o tinha curado sem remédios nem ervas. E não somente a ele, mas também a Abdon, filho de Abdon, que sofria de gota e que, aproximando-se também de Tadeu, caiu a seus pés, suplicou com suas mãos e foi curado. E muitos outros concidadãos curou Tadeu, operando maravilhas e proclamando a palavra de Deus.

19. Depois disso disse Abgaro: Tadeu, tu fazes estes milagres com o poder de Deus, e nós ficamos maravilhados. Mas eu te rogo que também nos dês alguma explicação sobre a vinda de Jesus, como foi, e também sobre seu poder: em virtude de que poder operava ele os prodígios de que ouvi falar.

20. E Tadeu respondeu: Agora guardarei silêncio. Mas amanhã, já que fui enviado para pregar a palavra, convoca em assembléia todos teus concidadãos, e eu pregarei diante deles, e neles semearei a palavra da vida: sobre a vinda de Jesus: como foi; e sobre sua missão: por que o Pai o enviou; e sobre seu poder, suas obras e os mistérios de que falou no mundo: em virtude de que poder realizava isto; e sobre a novidade de sua mensagem, de sua humildade e humilhação: como se humilhou a si mesmo depondo e reduzindo sua divindade, e como foi crucificado e desceu ao Hades, e fez saltar o ferrolho que desde sempre prevalecia e ressuscitou mortos, e como, tendo descido só, subiu a seu Pai com uma grande multidão.

21. Mandou pois Abgaro que ao amanhecer se reunissem todos seus cidadãos e que escutassem a pregação de Tadeu, e ordenou que lhe dessem ouro e prata sem poupar. Mas ele não o aceitou e disse: Se deixamos o nosso, como poderíamos tomar o alheio?

Corria o ano de 340.[7]

22. Baste para o momento este relato, que não será inútil, traduzido literalmente da língua Siríaca.




[1] Cf. 12:3.

[2] Eusébio provavelmente copiou os documentos já traduzidos anteriormente.

[3] Abgaro o Negro.

[4] Gn 19:20.

[5] At l:2-ss.;Jo 16:5.

[6] Mt 10:1.

[7] Isto seria os anos 28-29 d.C; o texto segue a Era Selêucida, iniciada em 1º de outubro de 312a.C.

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