História e Bíblia

UMA PONTE PARA O CONHECIMENTO

Translate

Follow by Email

Total de visualizações de página

SEJA UM SEGUIDOR


Olá, seja bem vindo ao blog HISTÓRIA E BÍBLIA! Gostária de convidá-lo a
ser um seguidor. Basta clicar em seguir ao lado e seguir as orientações.


A entrevista de Leonardo Boff sobre Bento XVI que a Folha não publicou


“O perfil do próximo Papa não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política”
Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi.Então publico a entrevista inteira aqui no blog para reflexão e discusão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica.As perguntas foram reordenadas: Lboff


1.Folha - Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?

R/ Eu desde o principio sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele, aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites fisicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja mas um representante de Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transsexual.

2.Folha - Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?

R/ Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: O lugar da Igreja no mudo secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 pp. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em portugues. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde. Depois em 1984 nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro Igreja: carisma e poder” (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno entre outros sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive que deixar a cátedra e proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.

3.Folha -  Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?

R/Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé(ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamentea cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma. Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que aitrabalham no Vaticano rapidamente encontram mil razões para serem moderados e até conservadores. Então sim fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.

4.Folha -  Como o Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?

R/ Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita que está como adendo da nova edição de Igreja: charisma e poder (Record 2008) são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o “silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Card. Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Card Ratzinger em certo constrangimento pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num document saido recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a idéia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis que estava em Roma que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.

5.Folha - O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?

R/ Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do pais. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam) sabe que, se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na A.Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Card. J. Ratzinger condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal:”Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade”. Só que esta boa-vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.

6.Folha -  Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?

R/ Bento XVI foi um eminente teólogo mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos USA negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Romero de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano já emérito. Ambos tem seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos,alguns da mafia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades mas agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.

7.Folha O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transfomar a Igreja novamente em algo como um museu?

R/ Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade onde ele estudou e eu tambem, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação pediu o reitor que protelasse sine dia o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade que a vê sob a ótica do secularism e do relativismo e for a do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.

8.Folha - A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?

R/ A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ele deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateismo, mas o medo. O medo paraliza e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente mas não se apropria com exclusividade desta realidade.

9.Folha O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?

R/ Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir do seéculo XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos.Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Tróia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II mas o interpretou à luz do Vaticano I que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamano da China.Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados como o alemão e frances e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente:”Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”, pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos. Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vem a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério.Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.

Fonte:http://leonardoboff.wordpress.com





Balanço anual do macro: estamos indo de mal a pior
Leonardo Boff 30/12/2012

“A realidade mundial é complexa. É impossível fazer um balanço unitário. Tentarei fazer um atinente à macro-realidade e outro à micro. Se considerarmos a forma como os donos do poder estão enfrentando a crise sistêmica  de nosso tipo de civilização, organizada na exploração ilimitada da natureza, na acumulação também ilimitada e na consequente criação de uma dupla injustiça: a social com as perversas desigualdades em nível mundial e a ecológica com a desestruturação da rede da vida que garante a nossa subsistência e se, ainda tomarmos como ponto de aferição a COP 18 realizada neste final de ano em Doha no Qatar sobre o aquecimento global, podemos, sem exagero dizer: estamos indo de mal a pior. A seguir este caminho encontraremos lá na frente e, não demorará muito, um “abismo  ecológico”.
        Até agora não se tomaram as medidas necessárias para mudar o curso das coisas. A economia especulativa continua a florescer, os mercados cada vez mais competitivos –o que equivale dizer – cada vez menos regulados e o alarme ecológico corporificado no aquecimento global posto praticamente de lado. Em Doha só faltou dar a extrema-unção ao Tratado de Kyoto. E por ironia se diz na primeira página do documento final que nada resolveu, pois protelou tudo para 2015:”a mudança climática representa uma ameaça urgente e potencialmente irreversível para as sociedades humanas e para o planeta e esse problema precisa ser urgentemente enfrentado por todos os países”. E não está sendo enfrentado. Como nos tempos de Noé,  continuamos a comer, a beber e a arrumar as mesas do Titanic afundando, ouvindo ainda música. A Casa está pegando fogo e mentimos aos outros que não é verdade.
        Vejo duas razões para esta conclusão realista que parece pessimista. Diria com José Saramago: ”não sou pessimista; a realidade é que é péssima; eu sou é realista”. A primeira razão tem a ver com a premissa falsa que sustenta e alimenta a crise: o objetivo é o crescimento material ilimitado (aumento do PIB), realizado na base de energia fóssil e com o fluxo totalmente liberado dos capitais, especialmente especulativos.
Essa premissa está presente em todos os planejamentos dos países, inclusive no brasileiro. A falsidade desta premissa reside na desconsideração completa dos limites do sistema-Terra. Um planeta limitado não aquenta um projeto ilimitado. Ele não possui sustentabilidade. Aliás, evita-se a palavra sustentabilidade que vem das ciências da vida; ela é não-linear, se organiza em redes de interdependências de todos com todos que mantem funcionando todos os fatores que garantem a perpetuação da vida e de nossa civilização. Prefere-se falar em desenvolvimento sustentável, sem se dar conta de que se trata de um conceito contraditório porque é linear, sempre crescente, supondo a dominação da natureza e a quebra do equilíbrio ecossistêmico. Nunca se chega a nenhum acordo sobre o clima porque os poderosos conglomerados do petróleo influenciam politicamente os governos e boicotam qualquer medida que lhes diminua os lucros e não apoiam por isso as energias alternativas. Só buscam o crescimento anual do PIB.
Este modelo está sendo refutado pelos fatos: não  funciona mais nem nos países centrais, como o mostra a crise atual nem nos periféricos. Ou se busca um outro tipo de crescimento que é essencial para o sistema-vida, mas que por nós deve ser feito respeitando a capacidade da Terra e os ritmos da natureza, ou então encontraremos o inominável.
A segunda razão é mais de ordem filosófica e pela qual me tenho batido há mais de trinta anos. Ela implica consequências paradigmáticas: o resgate da inteligência cordial ou emocional para equilibrar o poderio destruidor da razão instrumental, sequestrada já a séculos pelo processo produtivo acumulador.  Com  nos diz o filósofo francês Patrick Viveret “a razão instrumental sem a inteligência emocional pode perfeitamente nos levar a pior das barbáries”(Por uma sobriedade feliz, Quarteto 2012, 41); haja vista o redesenho da humanidade, projetado por Himmler e que culminou com a shoah, a liquidação dos ciganos e dos deficientes.
Se não incorporarmos a inteligência emocional à razão instrumental-analítica, nunca vamos sentir os gritos da Mãe Terra, a dor das florestas abatidas e a devastação atual da biodiversidade, na ordem de quase cem mil espécies por ano (E.Wilson). Junto com a sustentabilidade deve vir o cuidado, o respeito e o amor por tudo o que existe e vive. Sem essa revolução da mente e do coração iremos, sim, de mal a pior.”

Veja meu livro: Proteger a Terra-cuidar da vida: como evitar do fim do mundo, Record 2010.

Conheça o site http://leonardoboff.wordpress.com/






Um Deus anônimo
Leonardo Boff

Como homem, Jesus é como todos os homens: um trabalhador, carpinteiro como seu pai, José e um camponês mediterrâneo. Nem super-herói nem um especialmente piedoso que chamasse a atenção.

Era um homem de vila, tão pequena, Nazaré, que nunca é citada em todo o Antigo Testamento, talvez com uns 15 casas, não mais. Participou do destino humilhante de seu povo, subjugado pelas forças de ocupação militar romana. Nenhum documento da época falou dele, fora dos evangelhos. Não era conhecido nas rodas nem de Jerusalém e muito menos de Roma.

Como diz ironicamente o poeta Fernando Pessoa, Jesus não tinha biblioteca e não consta que entendesse de contabilidade. Ele é um anônimo no meio da massa do povo de Israel.

O fato de ter sido a encarnação do Filho de Deus não mudou em nada essa humilde situação. Deus quis se revelar nesse tipo de obscuridade e não apesar dela. E precisamos respeitar e aceitar esse caminho escolhido pelo Altíssimo.

A lição a se tirar é cristalina: qualquer situação, por humílima que seja, é suficientemente boa para encontrar Deus e para acolhermos a sua vinda nos labores cotidianos.

Jesus, disse São Paulo, não se envergonhou de ser nosso irmão. E efetivamente é nosso irmão, não só porque quis se revestir de nossa humanidade, mas é nosso irmão, principalmente por ter participado de nossa vida cotidiana, tediosa, sem brilho e renome, a vida dos anônimos.

Disso tudo tiramos essa singela lição: a vida vale a pena ser vivida assim como é – diuturna, monótona como o trabalho do dia-a-dia – e exigente na paciência de conviver com os outros, ouvi-los, compreendê-los, perdoá-los e amá-los assim como são.

Ele ainda é nosso irmão maior, enquanto dentro desta vida de luz e de sombra, viveu tão radicalmente sua humanidade a ponto de trazer Deus para dentro dela, um Deus próximo, companheiro de caminhada, energia escondida que não nos deixa desesperar face aos absurdos do mundo.

Por isso, precisamos, a despeito de tantos pensadores desesperados e céticos reafirmar: o Cristianismo não anuncia a morte de Deus. E, sim, a humanidade, a benevolência, a jovialidade e o amor incondicional de Deus. Um Deus vivo, criança que chora e ri e que nos revela a eterna juventude da vida humana perpassada pela divina.

Leonardo Boff

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

AS ‘MADURAS’ CRIANCICES DOS DISCÍPULOS



AS ‘MADURAS’ CRIANCICES DOS DISCÍPULOS
Caio Fabio



No caminho de terra e areia sobre o qual Jesus andava com Seus discípulos, a medida em que o tempo os deixava a vontade para ventarem o que existia em seus interiores diante de Jesus, o que neles havia de oculto, para eles mesmos, passava a ser revelado.

Isto porque talvez apenas Pedro e Mateus, desde sempre, tenham sido quem eram, do ponto de vista público. Afinal, já eram homens ‘definidos’ em suas personalidades. Os demais, entretanto, foram se mostrando devagar...

O moço meigo, que fazia carinho em Jesus, irmão de um outro homem bom (João e Tiago, respectivamente), ambos desejavam supremacia sobre os demais. Prova disso é que a mãe deles pediu a Jesus para que os seus dois filhos tivessem lugares à direita e à esquerda do Senhor no reino de Deus. Ora, dificilmente uma mãe faria algo assim sem que isto preexistisse como uma certa inclinação dos ‘meninos’.

Prova de que estavam meio surtados é que quando desceram com Jesus do monte onde houve a Transfiguração, logo a seguir surge a conversa de quem entre eles era o maior. Depois veio o surto de autoridade divina que os fez dizer que haviam proibido alguém que expulsava demônios, de o fazer, apenas porque ‘não andava com eles’. Não era nem mesmo um ‘não anda contigo’ o que eles disseram. Sim, com extrema facilidade, apenas porque haviam recebido certas deferências de carinho e amizade, e também de investimento de Jesus neles, eles já se sentiam “especiais”, e já falavam em nome de Jesus até contra Jesus, e já eram os que sabiam das coisas, os que decidiam quem era quem..., os que agora eram ‘sócios’ da revelação..., esquecidos de quem eram: meninos empolgados e ainda inconseqüentes. Sim, se sentiam como aqueles que olham para Jesus e dizem ‘nós’ como quem ‘inclui Jesus’; esquecidos de quem eram: apenas os convidados e os incluídos pela Graça Inexplicável.

Além disso, no prosseguimento do mesmo surto, João se enche de um ‘poder’ tão estranho ao espírito de Jesus, que deseja fazer cair fogo do céu para consumir os samaritanos.

Meu Deus! Que viagem fez esse menino, João, até virar homem, e dizer que quem ama é nascido de Deus, e quem não ama, antes odeia, esse nunca nasceu de Deus; pois, Deus é amor!

É também o caso de Pedro. Depois de exposto a todas evidencias acerca de Jesus; e depois de ter visto e ouvido tudo o que teve chance de ver e ouvir — de súbito, por ter tido o ‘privilégio’ na Graça de discernir em Jesus o Cristo, arroga-se, daí em diante, a dizer o que Jesus deveria ou não fazer de Sua vida, chegando mesmo a dizer que Jesus estava dizendo que certas coisas futuras (cruz, morte, e até a ressurreição) jamais aconteceriam, visto que ele, Pedro, jamais permitiria que Jesus se expusesse a tal besteira.

Assim, após confessar aquilo que somente por ‘revelação divina’ se poderia saber, Pedro agora ouve Jesus lhe dizer, sem meias palavras e sem delicadezas: “Arreda de mim satanás, visto que cogitas conforme os homens e não segundo Deus!”

Algum tempo depois, quando a Cruz já se avizinhava, Jesus ‘lhes’ disse que Ele e o Pai eram Um, e muitas coisas mais acerca dessa intimidade de Deus com Deus. Então Pedro disse: “Agora cremos; pois agora é que falas claramente...” Jesus apenas olhou para ele e perguntou: “Credes agora? Pois vos digo que cada um fugirá... e eu ficarei só... mas não estou só... pois o Pai está comigo”.

É à volta desse evento que Jesus também advertiu a Pedro dizendo que satanás o requerera, a fim de peneirá-lo como se faz com o trigo... e que ele abrisse os olhos... embora Jesus tenha dito que orara por ele, para que sua fé não falecesse.

Ora, o resultado dessa ‘coragem’ espiritual e humana de Pedro e dos demais, incluindo os Filhos do Trovão, João e Tiago, manifestou-se idêntica. Na hora em que o bicho pegou... cada um correu para sua casa.

Usei esses dois exemplos (os irmãos Filhos do Trovão e Pedro-Pedra), apenas para falar que foi assim e que é sempre assim..., mesmo quando se está seguindo Jesus.

O que me interessa, entretanto, é a paciência de Jesus com esses meninos, que, ‘do nada’, se fizeram ‘aquilo’ que Jesus disse que não tentassem ser e nem fazer. E mais: assusta-me ver que num curtíssimo espaço de tempo é possível que os discípulos se inflem com tais sutis presunções.

Mas Jesus não desistia deles. Cria que eles ainda fariam muita tolice e que haveria ainda muita infantilidade (anos depois Pedro teve que ser repreendido por Paulo por fazer um apostolado de ‘média’ entre os gentios e os discípulos de Tiago de Jerusalém). Ora, é essa insistência de Jesus na formação da consciência de meninos a fim de que cresçam e virem homens maduros, aquilo que mais me fascina na relação Dele com os apóstolos, os quais, muitas vezes, diziam coisas e afirmavam realidades tão impróprias e ignorantes, que até parecia que eles é que haviam chamado Jesus para segui-los...

Meu pecado é tão grande que, conquanto eu precise dessa Graça que investe em mim e na minha meninice, até que eu me torne um homem maduro em Cristo, eu mesmo sei que me resta muito pouca paciência quando vejo pessoas fazerem isto comigo. Sim, comigo que não sou nada e que não dei minha vida pela salvação de ninguém.

Ou seja: é preciso ser maduro para ver que há muitos, bem intencionados, mas que, sem delegação, começam a falar por você, ou dizer o que você lhes ensinou como se fosse algo que os acometeu por ‘osmose’... ou que em nada tivesse a ver com sua doação de vida e tempo a eles.

Nessa hora, a maturidade de quem lidera é deixar como Jesus deixou... sem abandonar; pois, um pouco mais adiante, esses esquecidos acabarão por se lembrar da realidade com mais precisão.

Sim, quando as perseguições do mundo real os fizer saber com quantos paus se faz uma cangalha.

Assim, no Caminho, quem anda mais adiante pela experiência, tem que se revestir de muita paciência; pois, os surtos de infantilidade são os mesmos que se pode perceber que marcaram a jornada de Jesus com os discípulos que seriam um dia verdadeiros apóstolos.

No passado, eu levava muito tempo para admitir que o que eu via era o que de fato estava acontecendo. E mais: levava muito tempo para falar o que via. Hoje, entretanto, sofro muito mais, pois enxergo a bobeira antes dela virar palavra ou qualquer coisa, mas me contenho; e, quando falo, é apenas quando vejo que a pessoa, mesmo recebendo toques, não se enxerga no processo interior que nela está se instalando.

Desse modo, no Caminho, não há ninguém que não seja forçado a se enxergar e a crescer. E isto acontece quando a existência nos chama de nossas sombras, expõe as nossas entranhas e estranhas motivações; ou, muitas vezes, as tentações de poder latentes em nós.

Nesses anos de ministério já vi praticamente tudo acontecer. Sim, já vi de quase tudo em relação a pessoas que receberam anos de investimento... E mais: se eu fosse ficar ressabiado com tais constatações, não me animaria a fazer mais nada com ninguém; posto que não apenas cansei de muita criancice, como também, infelizmente, meu discernimento de espíritos, até desses brandos, cresceu enormemente nos últimos anos, o que me faz ter que exercitar muito mais paciência na espera pela chegada da maturidade; pois, quando você não vê nada, é muito melhor e menos sofrido do que quando você vê o tempo todo, mas deve esperar que a Palavra e o Espírito tragam revelação interior para esses corações.

Leva muito tempo pra gente ir deixando as coisas de menino e abraçando o mundo dos adultos no Reino!

Estou escrevendo isto porque, muitas vezes, recebo cartas de gente se candidatando a dirigir ou começar Estações do Caminho; e que sei serem gente boa de Deus; mas que se vão fazer qualquer coisa comigo, quero logo deixar claro que minhas sensibilidades para idiotices e buscas de supremacia e poder estão à flor de minha pele, e, muito raramente, hoje em dia, me engano quanto a isto; embora, com Jesus, eu esteja também aprendendo que os líderes Dele sempre começam como crianças bobas e tolas em muitas coisas. E eu mesmo que o diga!

Nele, que é Aquele que nos quer apenas sendo quem somos e fazendo o quê e como Ele nos ordenou,

Caio

Conheça o site http://www.caiofabio.net/