História e Bíblia

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

O SONHO DE NABUCODONOSOR




O SONHO DE NABUCODONOSOR

Frei Betto - 14/02/2011

Os países ricos do  Ocidente, cuja democracia se baseia no poder do dinheiro, não têm princípios,  apenas interesses. Acusam Cuba de ser uma ditadura que não respeita os  direitos humanos por não admitirem o caráter socialista daquela Revolução que, há mais de 50 anos, resiste às agressões do maior império econômico e bélico  da história da humanidade. 

No entanto, tecem loas à China. Fazem  vista grossa ao regime escravocrata de mão de obra barata, onde se fabrica  tudo aquilo que, no Ocidente, exigiria pagar salários mais altos, reduzindo a  margem de lucro das empresas ocidentais. Inúmeros produtos em oferta em nossas  lojas, embora grifadas por marcas originárias do Ocidente, são “made in  China”. 

Para governos como o dos EUA, do Reino Unido, da França  e da Alemanha, o fato de um ditador como Hosni Mubarak ocupar, por 30 anos, o  poder no Egito, não tem a menor importância. Desde que sirva a seus interesses  geopolíticos numa região explosiva. Vale para Mubarak o que John Foster Dulles  dizia do ditador Anastácio Somoza, da Nicarágua: “É um filho da p., mas é  nosso filho da p.”

De olho no petróleo, os governos  ocidentais sempre respaldaram os governos tirânicos do mundo árabe. Negócios,  negócios, princípios à parte. Qual potência europeia rompeu com uma das tantas  ditaduras militares que assolaram a América Latina nas décadas de 1960 e  1970?

O Ocidente nunca se incomodou com a ausência de eleições  periódicas nos países árabes, a opressão  da mulher, a perseguição aos  homossexuais, o luxo nababesco dos governantes frente à miséria da grande  maioria da população. Quantos ditadores africanos engordam os cofres dos  bancos europeus?

Agora os EUA estão como o rei da história de  Hans Christian Andersen: nu, despido de sua arrogância supostamente  democrática, de sua prepotência imperial. E o pior, colocado entre a cruz e a  caldeirinha: se Mubarak permanece, a Casa Branca sustenta uma ditadura e  despreza o clamor do povo egípcio. Se é derrubado, há o risco de o Egito se  transformar, como o Irã, numa nação islâmica, hostil a Israel e aos propósitos  ocidentais. 

Narra a Bíblia que o profeta Daniel (2, 31-36) foi  convocado para interpretar um sonho que tanto inquietava o rei Nabucodonosor,  da Babilônia: “Era uma grande estátua, alta e muito brilhante. Ela estava bem  à frente de Vossa Majestade e tinha aparência impressionante. A cabeça era de  ouro maciço; o peito e os braços eram de prata; a barriga e as coxas, de  bronze; as canelas de ferro e os pés, parte de ferro e parte de barro. Vossa  Majestade contemplava a estátua quando, sem ninguém jogar, caiu uma pedra que  bateu exatamente nos pés de barro e ferro da estátua, quebrando-os. Em  segundos, tudo desmoronou. Ferro, barro, bronze, prata e ouro ficaram como  palha no terreiro em final de colheita, palha que o vento carrega sem deixar  sinal. Depois, a pedra que tinha atingido a estátua se transformou numa enorme  montanha que cobriu o mundo inteiro.”

A pedra, no caso do mundo  árabe, é a ânsia popular de democracia entendida como justiça social e paz. O  que pensa um iraquiano vendo seu país há anos dominado por tropas ocidentais  que tratam os habitantes como escória da humanidade? O que pensa um afegão  vendo aviões ocidentais bombardearem aldeias, matando crianças, mulheres,  idosos, sob a desculpa de se tratar de um refúgio talibã?
A  pedra é a cultura religiosa, muçulmana, que grassa naqueles países, e que nada  tem a ver com o suposto cristianismo do Ocidente. Em nome de Deus e de Jesus,  o Ocidente subjugou, durante séculos, a África, a Ásia e a América Latina.  Escravizou habitantes, extorquiu riquezas, transferiu para a Europa  preciosidades arqueológicas, como a Pedra de Roseta – hoje no Museu  Britânico -, fragmento de uma estela  de granodiorito do Egito antigo,  cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios.  Sua inscrição registra um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis,  em nome do rei Ptolomeu V.

O pensamento islâmico não distingue a  fronteira entre religião e política. Esta deve ser monitorada por aquela. E a  autoridade religiosa é encarada, como ocorria no Ocidente medieval, detentora  do poder político.

Para tal conjuntura, o Ocidente só conhece uma  resposta: armas, guerras, ocupações, subornos e ditaduras. Porque é incapaz de  empreender o diálogo interreligioso, de reconhecer o direito daqueles povos à  autodeterminação, de pautar-se por princípios e não pela voracidade obsessiva  do mercado por lucro.
Se o fundamentalismo islâmico incute em  jovens a mística do martírio, introduzindo uma forma de terrorismo  incontrolável, o fundamentalismo do mercado incute nos ocidentais a convicção  de que igrejas e mesquitas devem ceder lugar aos shopping centers, templos de  consumismo e miniaturização do paraíso na Terra. 

Eis a pergunta  que, esta semana, se repete em Dakar, no Fórum Social Mundial, e exige  resposta urgente: Um outro mundo é possível?

Frei Betto

domingo, 20 de fevereiro de 2011

DEUS SÓ É BOM SE FOR FIXO!

DEUS SÓ É BOM SE FOR FIXO!

(Texto de Caio Fabio)

Quando Jesus disse “Quem me vê a mim, vê o Pai”, acabou todo o trabalho de especulação acerca de Deus; e iniciou-se o caminho do conhecimento de Deus pela via da experiência pessoal do individuo com Jesus; como também se deflagrou, explicitamente, a jornada do conhecimento de Deus pela simples e humana manifestação de Jesus para com todos os tipos de seres humanos.

Olhando Jesus, vejo Deus se relacionando com os seres humanos num mundo não-ideal, ou, caído, como se costuma dizer. Assim, Jesus revela a relação de Deus com a vida conforme os olhos humanos a vêem. E propõe a relação do homem com Deus como amor a Deus que se manifesta de modo humano; amando a Deus no próximo.

Em Jesus, o amor a Deus, se torna algo simples como Ele disse que simples seria ver o Pai: simplesmente olhando para Ele: “Quem me vê a mim, vê o Pai”. Todavia, seguindo o mesmo sentido e qualidade relacional, Jesus disse que se Deus é visto no Filho do Homem, do mesmo modo Deus só é amado no homem.

Desse ponto em diante começa a vida com Deus que se faz marcar pelo “assim como...” Sim, “assim como vos amei, amai-vos uns aos outros”. Ou: “Assim como vos fiz (lavando-lhes os pés)... fazei uns aos outros”. Ou mesmo: “Assim não será entre vós...”, como quando falou que o padrão de liderança entre os discípulos não era pela via do controle, mas do serviço e da doação do ser ao próximo e sem juízo. Ou, então, para não sermos longos demais, como quando disse: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

Desse modo, se substitui toda especulação pelo simples “assim como eu, assim seja com vocês, pois assim é conforme o Pai, o qual é visto em mim; pois eu e Ele somos Um”.

O interessante, entretanto, é que os humanos, que sempre criaram “imagens de escultura” para serem seus deuses, ou que, modernamente, cultuam, por exemplo, a igreja, a religião, gurus, etc..., como verdadeiros deuses —, ficam, entretanto, chocados, quando se diz que a “teologia” acabou, que a filosofia cristã especulativa e grega é uma estultícia, e que em Jesus está tudo...

Sim, Deus aberto, explicito, santamente arreganhado.

Diante disso, questão é: como se pode cultuar uma imagem fixa e criada pelo homem e, ainda assim, ficar escandalizado quando se diz, fundado no fato de que “quem vê o Filho, vê o Pai”, que quem vê Jesus, vê Deus?

A resposta é tão obvia quanto o pecado humano: “Deus de pedra a gente topa, mas vivo e humano-divino, andando e nos chamando a andar, a gente não quer”.

Sim, porque se prefere qualquer coisa fixa, seja um ídolo de barro, pau, pedra, ouro, gesso, bronze, etc; ou seja um “Deus” feito de pacotes de salvação; de unções especiais feitas por homens especiais; ou algo coberto pela aura de uma espiritualidade ativada pela via de um rito, de um culto, de uma oferta, ou de qualquer outra forma de controle e gestão do sagrado — do que simplesmente crer que quem vê Jesus, vê o Pai; e tem tudo.

E por quê será assim tão simples e complicado, tanto para “pagãos” quanto para “cristãos”?

É que essa hiper-simplificação que a encarnação faz de Deus — quem me vê a mim, vê o Pai — não é fixa, porém insuportavelmente livre. E ninguém, de fato, ou quase ninguém, gosta de liberdade; como também não quer ter que possuir uma consciência que tenha que ser exercida o tempo todo, seguindo a simplificação suprema de Deus na Encarnação; a qual é simples, mas é tão livre como o vento que sopra onde quer. E, portanto, demanda a coragem das folhas que apenas se deixam levar... E isto conforme o Evangelho, nas vísceras da existência; e sempre inapelavelmente em Deus e com Deus.

Ao final, em algum momento final de verdade absoluta, todos os humanos vão ter que admitir que amaram muito pouco a liberdade; e, por tal razão, tendo tido tudo para viver livres, sempre criaram álibis para colocarem-se sob novos jugos de escravidão; até mesmo aqueles falados elameadamente como “liberdade”. Jesus disse: “Quem me vê a mim, vê o Pai”.

Mas o problema é que Ele não disse fiquem, mas sigam-me; não disse façamos aqui três tendas, mas afirmou que quem propôs tal coisa não sabia a loucura que pronunciava; não disse fujam do mundo, mas sim vivam nele livres do mal; não propôs nenhuma evasão da realidade, ao contrário, mandou discernir os tempos; não era previsível em nada, exceto em Seu amor e misericórdia; não se impressionava com gente, nem com lisonjas, nem com números, e nem com Seus próprios milagres, ou qualquer milagre, sempre afirmando que o grande milagre era amar apesar de tudo.

Assim, sempre escandalizou quem não deveria se escandalizar; e sempre escandalizou a todos aqueles que achavam que um homem como Ele não se ofereceria para ser amigo deles.

Por esta razão é melhor chamar pau e pedra, e doutrina e dogma, de “Meu Deus”; do que apenas ver o Pai em Jesus, e, sem especulação, ou teologizações, apenas “segui-Lo”.

Por isto, tal percepção é tão danosa aos fazedores de ídolos de latão ou de pacotão de barganhas cristãs com “Deus”, como também o é aos teólogos sofisticados, e, acima de tudo, à religião.

E por quê?

Ora, qual é a diferença entre um fazedor de ídolos de pedra e um fazedor de ídolos de idéias?

Outro dia um “alto clero” evangélico me disse que “a teologia é o estudo de Deus”. Que diferença há entre tal “curso sobre Deus” e um “treinamento” que um artífice de ídolos dá a um novo assistente de oficio? “Quem me vê a mim, vê o Pai” é uma revolução que quase ninguém quer; pois acaba com quase tudo o que foi instituído como divino e sagrado. E isto vai da Macumba à Igreja Evangélica.

Enquanto isto...

Os mercenários, os lobos, ou os doutores de Deus, tentam convencer o povo de que se não forem obedecidos, ou seguidos em suas sabedorias, no primeiro caso haverá maldição; e, no segundo caso, uma viagem sem volta para fora da “sã doutrina”; a qual, só é sã porque é a deles; e eles são os “sãos” que não precisam de médico. Por esta razão, Jesus continuará a ser a manifestação e encarnação do Pai para os cristãos, desde que sempre seja visto pelos olhos mal-intencionados de uns; ou apenas fanaticamente condicionados dos que confessam tudo isto, mas têm pavor que o povo acredite, e não precise mais de suas “sacerdotalidades” a fim de prosseguirem na jornada. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos!” — advertiu o velho apóstolo João!

Nele, que É Aquele que É,

Caio

Escrito em 2005

Conheça os sites

http://www.caiofabio.net

http://www.vemevetv.com.br/


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

NEOPAGANISMO EVANGÉLICO



NEOPAGANISMO EVANGÉLICO - JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

FOLHA DE SÃO PAULO

Domingo, 02/08/2009

Neopaganismo Evangélico

Teologia pentecostal se afasta da tradição judaico-cristã ao atribuir ao mal uma potência independente de Deus e dos homens

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

Colunista da Folha

Estava passeando pela TV quando dei com um culto da Igreja Mundial do Poder de Deus. Teria rapidamente mudado de canal se não tivesse acabado de ler o interessante livro de Ronaldo de Almeida, "A Igreja Universal e seus Demônios – Um Estudo Etnográfico" [ed. Terceiro Nome, 152 págs., R$ 28], que me abriu os olhos para o lado especificamente religioso dos movimentos pentecostais. Até então, via neles sobretudo superstição, ignorando o sentido transcendente dessas práticas religiosas.

No culto da TV, o pastor simplesmente anunciou que, dado o aumento das despesas da igreja, no próximo mês, o dízimo subia de 10% para 20%. Em seguida, começou a interpelar os crentes para ver quem iria doar R$ 1.000, R$ 500 e assim foi descendo até chegar a R$ 1.

Notável é que o dízimo não era pensado como doação, mas simplesmente como devolução: já que Deus neste mês dera-lhe tanto, cabia ao fiel devolver uma parte para que a igreja continuasse no seu trabalho mediador. Em suma, doar era uma questão de justiça entre o fiel e Deus.

Em vez de o salário ser considerado como retribuição ao trabalho, o é tão só como dádiva divina, troca fora do mercado, como se operasse numa sociedade sem classes. Isso marca uma diferença com os antigos movimentos protestantes, em particular o calvinismo, para os quais o trabalho é dever e a riqueza, manifestação benfazeja do bom cumprimento da norma moral.

Se o salário é dádiva, precisa ser recompensado. Não segundo a máxima franciscana "é dando que se recebe", pois não se processa como ato de amor pelo outro. No fundo vale o princípio: "Recebes porque doastes".
E como esse investimento nem sempre dá bons resultados, parece-me natural que o crente mude de igreja, como nós procuramos um banco mais rentável para nossos investimentos.

O crente doa apostando na fidelidade de Deus. Os dísticos gravados nos carros, "Deus é fiel", não o confirmam? Mas Dele espera-se reciprocidade, graças à mediação da igreja, cada vez mais eficaz conforme se torna mais rica. Deus é pensado à imagem e semelhança da igreja, cujo capital lança uma ponte entre Ele e o fiador.

ANTICALVINISMO
Além de negar a tradicional concepção calvinista e protestante do trabalho, esse novo crente não mantém com a igreja e seus pares uma relação amorosa, não faz do amor o peso de sua existência.

Sua adesão não implica conversão, total transformação do sentido de seu ser; apenas assina um contrato integral que lhe traz paz de espírito e confiança no futuro. Em vez da conversão, mera negociação. Essa religião não parece se coadunar, então, com as necessidades de uma massa trabalhadora, cujos empregos são aleatórios e precários?

Outro momento importante do livro é a crítica da Igreja Universal ao candomblé, tomado como fonte do mal. Essa crítica não possui apenas dimensões política e econômica, assume função religiosa, pois dá sentido ao pecado praticado pelo crente. O pecado nasce porque o fiel se afasta de Deus e, aproximando-se de uma divindade afro-brasileira, foge do circuito da dádiva. Configura fraqueza pessoal, infidelidade a Deus e à igreja.

Nada mais tem a ver com a ideia judaico-cristã do pecado original. Não se resolve naquela mácula, naquela ofensa, que somente poderia ser lavada pela graça de Deus e pela morte de Jesus, mas sempre requerendo a anuência do pecador.

Se resulta de uma fraqueza, desaparece quando o crente se fortalece, graças ao trabalho de purificação exercido pelo sacerdote. O fiel fraquejou na sua fidelidade, cedeu ao Diabo cheio de artimanhas e precisa de um mediador que, em nome de Deus, combata o Demônio. O exorcismo é descarrego, batalha entre duas potências que termina com a vitória do bem e a purificação do fiel.

PAGANISMO
Compreende-se, então, a função social do combate ao candomblé: traduz um antigo ritual cristão numa linguagem pagã. Os pastores dão pouca importância ao conhecimento das Escrituras, servem-se delas como relicário de exemplos. Importa-lhes mostrar que o Diabo, embora tenha sido criado por Deus, depois de sua queda se levanta como potência contra Deus e, para cumprir essa missão, trata de fazer o mal aos seres humanos.

O mal nasce do mal, ao contrário do ensinamento judeu-cristão que o localiza nas fissuras do livre-arbítrio. Adão e Eva são expulsos do Paraíso porque comeram o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e assim se tornam pecadores, porque agora são capazes de discriminar os termos dessa bipolaridade moral.

Essa teologia pentecostal se aproxima, então, do maniqueísmo. Como sabemos, o sacerdote persa Mani (também conhecido por Maniqueu), ativo no século 3º, pregava a existência de duas divindades igualmente poderosas, a benigna e a maligna. Isso porque o mal somente poderia ter origem no mal. A nova teologia pentecostal empresta o mesmo valor aos dois princípios e, assim, ressuscita a heresia maniqueísta, misturando o cristianismo com a teologia pagã.
***
JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da USP e pesquisador do
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção
"Autores", do Mais!.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O que é ser judeu?







O que é ser judeu?

 Jaime Pinsky

Mesmo para aqueles que acham que judaísmo é apenas uma religião, o assunto provoca divergências. Não é por acaso que se conta a história do náufrago judeu que, após dez anos desaparecido, é encontrado numa ilha deserta por um navio que por lá passava. O capitão encantou-se com as estratégias de sobrevivência dele, que incluíam a construção de uma casa bastante sólida, a confecção de redes de pesca e arpões e, para sua surpresa, duas sinagogas. “Duas sinagogas?”, perguntou o capitão. “Para que construir duas sinagogas se você está sozinho na ilha?” “Muito simples”, respondeu o náufrago. “Naquela, eu rezo todos os sábados. Já na outra, eu não entro de jeito nenhum.”

Assim são os judeus religiosos: uns, ortodoxos; outros, conservadores; os terceiros, liberais; e ainda os reformistas – além de várias outras denominações. A convivência nem sempre é pacífica, mas a ausência de um poder central e de uma função sagrada para os rabinos (eles não falam em nome de Deus, não dão sacramentos, e qualquer ato religioso judaico pode ser realizado sem sua presença) faz com que as diferentes comunidades contratem diferentes tipos de rabino. Há, inclusive, rabinos gays e “rabinas”. Seu papel mais importante é adaptar leis milenares às práticas de cada grupo. É por isso que uma comunidade tão pequena como a brasileira – menos de 0,1% da população do país – tem tantas sinagogas, organizações e porta-vozes. É muito cacique para pouco índio.

Mas limitar o judaísmo à identidade religiosa não responde a todas as situações. É possível dizer que Philip Roth não seja um escritor judeu, que Woody Allen não é um cineasta judeu, que Marc Chagall não foi um pintor judeu, que Sigmund Freud não tenha sido judeu? O judaísmo está presente nas obras de todos esses gênios.

Uma parcela significativa da juventude israelense, como protesto pela inexistência do casamento civil no Estado de Israel, recusa-se a se casar na sinagoga e viaja até Chipre para oficializar sua união. Seriam esses jovens não-judeus?

Não há uma única forma de identificar os judeus. Eles não permaneceram identificados como tais apesar da história, mas por causa da história. Não fossem necessários, teriam desaparecido como povo. O grande segredo de sua permanência é que eles não permaneceram, mudaram. Nada mais distante de um judeu do gueto do que um outro que transcenda a idéia da nação. Quando, depois de muitos e muitos séculos, os judeus obtiveram sua emancipação como cidadãos – isso tudo só após a Revolução Francesa –, muitos saíram da cidadezinha para o mundo, tocando música, escrevendo, pintando, marcando, enfim, sua presença no mundo a partir do início do século 20.

Isso, contudo, só ocorreu para uma pequena fração de judeus. A maioria continuava nas aldeias e nos bairros pobres das cidades da Europa Oriental. E é nesses ambientes que surge o nacionalismo judaico. Deve-se localizar as raízes da identidade nacional judaica no século 20, na Europa centro-oriental, e atribuí-la a três fatores complementares: o esgotamento das formas de existência judaica nas cidadezinhas e nos guetos das cidades da Polônia e região; a “primavera das nações”, então em curso, que se apresentava como uma panacéia universal, remédio destinado a superar pobreza e perseguições (não foi, como sabemos); e o profundo sentimento de identidade cultural.

Embora a colonização moderna da Palestina pelos judeus tenha se iniciado no final do século 19, ela ainda não era muito significativa – em termos quantitativos – até a década de 1930. Mas a ascensão de Hitler ao poder e a “solução final” concebida e executada pelos nazistas (com o assassinato sistemático da maioria da população judaica européia) fez com que grande parte dos judeus não percebesse outro caminho que não a “reconstrução” de um Estado que pudesse funcionar como refúgio a todos os judeus do mundo que se sentissem perseguidos. Essa é a história de Israel.

Isso faz com que todos os judeus sejam israelenses e que todos os israelenses sejam judeus? Claro que não. Em Israel, existe um significativo número de israelenses árabes, muçulmanos ou cristãos. E bem menos da metade da populacão judaica do mundo vive em Israel, por qualquer critério que se queira identificar esses judeus.

Há sempre quem olhe o judeu de forma preconceituosa, francamente negativa ou falsamente positiva, mas nem por isso menos discriminatória. Há quem diga que existe um judaísmo gastronômico, outro ufanista (esgrimindo com violinistas, escritores e cientistas judeus que ganharam o Prêmio Nobel). Há mesmo quem ainda acredite que os judeus sejam o povo eleito. Tenho, contudo, a convicção de que sua experiência como discriminados habilitou os judeus a lutar contra qualquer discriminação, e o período da vida na aldeia isolada ou nos guetos desenvolveu em muitos judeus o ódio ao etnocentrismo, ao horizonte limitado. Há um judaísmo universal e ele pode ser praticado.

Jaime Pinsky é doutor e livre-docente em História pela USP e professor titular pela Unicamp. É autor de mais de 20 livros, entre os quais Origens do Nacionalismo Judaico e História da Cidadania, e diretor editorial da Editora Contexto.