História e Bíblia

UMA PONTE PARA O CONHECIMENTO

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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Valor do conhecimento



Aristóteles dando aulas para Alexandre

O imperador Alexandre o Grande, (356 – 323 a.C), foi aluno de um dos maiores filósofos que o mundo já conheceu – Aristóteles. E assim a ele se referiu:

“Honro mais meu preceptor Aristóteles do que meu pai, o rei Felipe da Macedônia, porque Felipe, dando-me a vida, trouxe-me do céu para a terra, enquanto Aristóteles, instruído-me, fez-me subir da terra para o céu”

(LACERDA, Nair. Grandes Anedotas da História. São Paulo, SP, Cultrix, 1977)

Uma reflexão para nosso o tempo

Vivemos um tempo em que filósofos, educadores e professores não são valorizados!
Vivemos um tempo em que bons livros não são lidos!
Vivemos um tempo em que não se busca ser intelectual!
Vivemos um tempo em que se escolhe a profissão pelo quanto se pode ganhar com ela!
Vivemos um tempo em que formações acadêmicas voltadas para educação e intelectualidade são aquelas de segundo plano!
Vivemos um tempo em que o entretenimento banal toma o lugar do conhecimento!

Note bem, os melhores salários são pagos para quais profissionais? Será que aqueles que se preocupam com a instrução, investigação intelectual e conhecimento, figuram entre os primeiros? NÃO. Aliás, vivemos um tempo em que um jogador de futebol, ganha centenas de milhões, enquanto que profissionais que colaboram para o desenvolvimento da sociedade são desrespeitado pela indiferença.

O que liberta o homem é apenas uma coisa: O CONHECIMENTO

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32)

O conhecimento de Deus liberta do pecado! Mas o conhecimento filosófico, cultural, educacional, histórico, ou seja, secular, pode libertar o homem socialmente e emancipa-lo de sua condição de instrumento de manipulação, e lhe dar um sentido mais amplo de vida.

Conhecimento

O conhecimento, fonte inesgotável de riquezas.
Nele viajamos, sem sair do lugar.
Nele o cego pode enxergar mais do que a águia.
Pelo conhecimento podemos ouvir em nossas mentes
a voz eterna do saber ecoando pelo nosso ser.

Conhecimento, algo detestável
para todos os que querem oprimir
e perpetuar sua opressão.

A máquina do tempo existe:
conhecer nos permite voltar no passado,
entender o presente,
projetar e prognosticar o futuro.

(Alexandre Leite M. Brandão)

Quantos podem afirmar como Alexandre: o conhecimento me levou da terra para o céu!

...Ou...

Quantos podem ouvir, como Paulo ouviu do governador romano da Judéia, Festo:
"As muitas letras te fazem delirar" (Atos 26. 24)

Doces são tais delirios...

sábado, 29 de agosto de 2009

A Filosofia de "Mensageiro"

O texto abaixo é parte do livro “conquistando Almas” – e foi escrito por um experiente (experiente mesmo, no sentido mais amplo da palavra) missionário. Sua biografia esta repleta de experiências extraordinárias de fé. Ainda que muitos discordem de pontos teológicos defendidos pelo irmão T.L Osborn, certamente, dificilmente encontraremos hoje alguém disposto fazer o ele fez, (e ainda faz).

Então, vale a pena ler o pensamento desse fecundo missionário.




A Filosofia de "Mensageiro"

Nós temos feito de Deus um mensageiro, um entregador de recados. Esquecemos que Ele é o Gerente Geral! Nós nos ocupamos em dizer a Deus para fazer todas as coisas desejáveis que nós mesmos devíamos fazer — visitar o pobre e necessitado, ir e confortar os fracos, abençoar e ajudar os pobres, encorajar os encarcerados, apoiar os fracos e falar com os pecadores. Queremos que o Senhor faça todas essas coisas enquanto nós oramos.

Que religião conveniente que desenvolvemos!


Permitam que eu lhes faça a seguinte pergunta:


Vocês podem me apontar uma única coisa que Jesus Cristo pode fazer em sua cidade ou comunidade sem um corpo através do qual Ele possa operar?


Quando Deus visitou o homem para mostrar-se a Si mesmo, Ele veio num corpo — em carne humana. Jesus Cristo era Deus encarnado.


Eles O mataram. Então Ele voltou na forma do Espírito Santo, para fazer a Sua morada em nossos corpos, como o Seu Templo, Cor. 6.19.


Agora você e eu somos o Seu Corpo.


Você é a Igreja. A Igreja é o Corpo de Cristo. Você é o Corpo de Cristo em sua comunidade.


Cristo ministra através do Seu Corpo hoje da mesma forma em que (Cristo) ministrou através de um corpo humano há mais de 1900 anos passados. Hoje o Seu Corpo é a Igreja — e a Igreja sou EU — o meu corpo, e VOCÊ o Seu corpo.


Nós somos o Seu templo.


Eu sou a Igreja. Eu sou o Corpo de Cristo.


Você é a Igreja. Você é o Corpo de Cristo.


"Porque somos membros do Seu Corpo, da Sua carne, dos Seus ossos". Ef. 5.30

Cristo nada pode fazer, exceto através da Igreja o Seu Corpo. Isso sou EU! Não a minha congregação ou a minha denominação. A Igreja, o Corpo de Cristo sou EU! É VOCÊ se você for um cristão verdadeiro.

Quando você estiver perante Deus, você precisa dar conta das obras que você fez (ou deixou de fazer) pessoalmente; você não será julgado na luz do que a sua igreja fez como um corpo espiritual. Deus não chamará a sua assembléia como uma unidade para julgamento; Ele não julgará o que a sua congregação fez (ou deixou de fazer) como parte do Corpo "incorporado" de Cristo. Você não poderá dizer, "Senhor, o meu pastor falará por mim; eu sou membro fiel da minha igreja e nós trabalhamos como uma unidade, portanto, eu não posso responder como um indivíduo".


Tanto quanto se refere a você pessoalmente perante Deus, VOCÊ é a Igreja; VOCÊ é o Corpo de Cristo.


Nós falamos a respeito da Igreja, ou do Corpo de Cristo como sendo a mística união de crentes, a comunidade dos chamados, e isto é tudo verdade. Mas como toda verdade, ela tem que se tornar PESSOAL, caso contrário será perdida. Temos considerado o Corpo de Cristo no seu sentido geral, coletivo, mas não em sua aplicação pessoal. Cristo deve viver em nós pessoalmente.


"O grande mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifestado aos seus santos" é "CRISTO EM VÓS!" Col. 1.26-27.

Cristo deve ter um corpo através do qual Ele possa ministrar hoje. E esse corpo sou EU — é VOCÊ. Nós somos a Igreja — o Seu Corpo — o Seu Templo.

Isso não quer dizer que nós ignoramos o Corpo de Cristo em seu sentido "incorporado" — constituído de todos os crentes; mas quer dizer que VOCÊ e EU despertamos ao fato de que Jesus Cristo é nascido EM NÓS e que NÓS somos agora o Seu Corpo.


Soa mais correto dizer, "somos membros do Seu Corpo" — e somos mesmos. I Cor. 12.27. Mas este conceito popular de "membro" foi um tanto torcido em sua aplicação de formas que os Cristãos ficam folgados na igreja, deixando o ministério para a "comunidade de crentes".


A igreja, a Escola Dominical, o grupo Missionário de Senhoras, a organização dos homens, o movimento de jovens — eles farão a obra.


Os membros da igreja gostam de saber que a sua igreja está operando. Eles estão dispostos a pagar por isso contanto que algum outro membro faça o trabalho.

Mas o Cristianismo é uma coisa pessoal. Se Cristo veio morar em VOCÊ, VOCÊ é o Seu Corpo — isto é, tanto quanto se refere a você. Ele mora em você porque Ele deseja ministrar ATRAVÉS de você. Ele precisa ter o SEU corpo para alcançar a SUA comunidade. A essência da sua experiência cristã, é CRISTO EM VOCÊ".

Quando Ele estava em Nazaré, "não podia fazer ali obras maravilhosas... devido à incredulidade deles", Marcos 6.5,6. Sem a fé humana por parte do povo, o Seu ministério era então limitado, e sem instrumentos humanos através dos quais Ele possa viver e falar, Ele está hoje limitado.



OSBORN, T.L. Conquistando Almas. Gospel Publishing House. O.S. Boyer, caixa postal 62. Pindamonhangaba - S. P

Introdução


A Importância de Conhecer

Antes de empregarmos qualquer projeto, é de suma importância ter o conhecimento, minuciosamente, de todo o processo pelo qual empregaremos nosso tempo e forças. Em uma guerra um general terá uma grande probabilidade de vitória se conhecer pelo menos duas coisas fundamentais, primeiro quais são suas reais forças e capacidades (dele e de seu exército), e segundo quais as reais forças e capacidades de seus adversários.


Conhecer é ter:

  1. Consciência de quem somos.
  2. Consciência do que teremos que enfrentar

Tal pensamento pode ser ilustrado nas próprias palavras de Jesus:


“Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar. Ou qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz.” (Lc 14.27-32)


Portanto para formação de uma liderança eficaz é necessário que antes de tudo tomemos consciência real de quais são os atuais obstáculos, adversidades e problemas da igreja. Além é claro, de ter plena consciência do que ou quem é a igreja, mas no momento estaremos focando as contrariedades da igreja.


Muitas são as adversidades a serem observadas e analisadas e faltaria espaço para discuti-las todas, porém citaremos algumas, talvez das mais comuns de nossas igrejas brasileiras.


Cabe ainda expor que antes de buscarmos soluções é necessário conhecer o problema, pois um médico não pode receitar um remédio sem antes ter diagnosticado a doença! Logo, estaremos não propondo estratégias miraculosas para uma liderança que cure a igreja, mas lançando luz onde se encontra focos de ação adversária na sagrada igreja de Cristo.


1. O Materialismo, os reflexos do capitalismo na igreja.


Na identificação das causas das misérias que padecem, ressalta como a principal, embora não a única, o sistema capitalista. Mais que o sistema é seu espírito de acumulação individualista, sua irresponsabilidade social e insensibilidade para com o ser humano, tratado como mera força de trabalho leiloado no mercado, que é denunciado como iníquo e contrário ao desígnio de Deus” (BOFF, 2004, p. 139).


“Sem compreendermos o capitalismo não podemos compreender a sociedade humana da maneira que ela atualmente existe” (Bernard Shaw – revista Filosofia, editora escala ano III nº. 34 p.21)


Por materialismo quero me referir não ao conceito filosófico, mas à “maneira de viver daqueles que pensam apenas nos prazeres físicos” (KOOGAN, 1999, p.1045).

Capitalismo é o “sistema econômico, político e social que procura sistematicamente a mais valia graças à exploração dos trabalhadores pelos proprietários dos meios de produção” (KOOGAN, 1999, p.318).


O capitalismo mudou o modo de vida das pessoas ao longo do processo da Revolução Industrial e tecnológica que atingiu e atinge os mais diferentes pontos do mundo.


Algumas sentenças são conhecidas do capitalismo: ter; a competição; a luta para se ter mais bens materiais a qualquer custo; o acúmulo de riquezas; o individualismo; a busca de lucros em tudo o que se faz; a exploração; o marketing; o imperialismo; o materialismo; consumismo, a transformação de tudo em mercadoria, etc.


Uma pessoa pensa de acordo com as condições de tempo e espaço a que pertence, “O modo como o indivíduo seja educado a pensar ou como sua cultura o torne propenso a pensar determina as práticas do dia a dia, tanto no plano individual quanto social” (Orientação pedagógica, Dom Bosco). Logo, por exemplo, alguém nascido num país mulçumano será propenso a pensar e agir de acordo com o pensamento islâmico, já alguém que tenha nascido numa comunidade judaica do século I, teria outras condições determinadas para formar seu pensamento.


É claro que alguns poderão tentar encontrar qualidades no sistema capitalista, porém, agora nos cabe analisarmos, ainda que brevemente, o sistema econômico, social e político em que nossas igrejas estão inseridas e até que ponto ele tem refletido sobre elas e seus líderes.


I. O capitalismo e sua interferência nas formas que nos relacionarmos com Deus.


Como já citamos o capitalismo tem influenciado o modo de vida das pessoas. E isto também se refere à igreja.


I.a. Nas orações

Infelizmente, facilmente podemos constatar, que a maioria das pessoas que vão a igreja hoje tem buscado algum beneficio físico (material). A maior parte do tempo que se gasta em oração é para pedir, e em geral para benefício próprio: para minha vida, para meu emprego, para minha casa, minha família, minha igreja, meu bairro, minha cidade, meu país.


Como são as campanhas realizadas nas igrejas de hoje? Quais os temas mais freqüentes? Prosperidade; mesa farta; pede o que queres; portas abertas; restauração financeira; vitória financeira; etc. Casa própria, carro e prosperidade tem sido o projeto de vida de muitos crentes hoje.


I.b. Nos “louvores”

Não quero depreciar ou questionar a sinceridade dos cantores e compositores evangélicos, mas ressaltar que os indivíduos de uma sociedade são filhos dela e são formados a pensarem de acordo com esta sociedade – pelo menos até que se libertem pelo conhecimento da verdade.


Qual têm sido os temas mais comuns das canções evangélicas? As atuais letras das músicas ditas gospel têm tratado do que? Facilmente podemos verificar que um considerável número desses louvores fala de conquista, vitória financeira, repreender o devorador, ser exaltado, ser posto por cabeça, ter a multiplicação – “cem vezes mais” –, alcançar promessas, etc.


Comparemos por exemplo o teor das letras de hinos antigos, como os da Harpa Cristã ou do Cantor Cristão, com o pensamento que é expresso em considerável quantidade de atuais ditos louvores.


I.c. Nas pregações

Este tem sido o marketing evangélico: aceite a Jesus e não sofra mais!

Este é o tipo de chamaris preferido de muitos líderes. Prometer aquilo nem mesmo Jesus prometeu. E certamente numa sociedade carente como a nossa é de se esperar que igrejas se encham de pessoas atrás desse “não sofra mais”. A igreja tem sido um caminho de busca de realização do sonho capitalista.


I.d. Nos dízimos e ofertas

Dar dízimo e oferta para receber cem vezes mais tem sido o fator motivador de muitos contribuintes. Votos como “vou ajudar a igreja caso ganhe isso ou aquilo” são fatos comuns em muitas igrejas. Até mesmo quem ajuda um necessitado fica na expectativa de alcançar algum favor de Deus. É a tentativa de barganhar com Deus.


II. Em busca do padrão de vida capitalista.

O que é necessário para se viver bem e feliz? O que as pessoas têm buscado em nossas igrejas para se tornarem felizes?


Viver bem e feliz, para muitos dos freqüentadores das igrejas de hoje é o sucesso financeiro, e isto é um pensamento capitalista. Pastor sem carro importado não é abençoado, irmão desempregado não é abençoado.

No livro “O homem de hoje”, Patrick Moley observa:


“A teoria econômica predominante durante os últimos quarenta anos mais ou menos tem sido o consumismo. O dicionário define o consumismo como ‘a teoria econômica que diz ser benéfico um consumo progressivamente maior de bens’. É verdade? O consumo progressivamente maior de bens é benéfico?” (MORLEY, 1995, p. 15).


“Hoje, uma falta de contentamento permeia a vida do consumidor em geral. Isso se deve a fato de quarenta anos de consumismo e influência da mídia terem causado uma mudança básica de valores. O desejo por coisas parece ter-se tornado mais importante que ter uma filosofia significativa de vida”. (MORLEY, 1995, p. 19).


O referido autor ainda observa que o estilo de vida que temos buscado é o padrão de vida da mídia, onde os bens matérias são os frutos da felicidade. O resultado disso é a frustração de passar a vida toda na busca frenética pelo modo de vida idealizado pelo capitalismo e ao fim não ter galgado nem um décimo daquilo que se idealizava.


III. O individualismo e competitividade das igrejas

O tipo de igreja e liderança que temos encontrado hoje, muitas vezes tem sido aquela que não pensa no próximo, mais semelhante ao sacerdote e ao levita, que “passam de largo”, do que ao bom samaritano, Lc. 10.30 – 37.


Temos presenciado verdadeiras competições entre igrejas e ministérios para ver quem tem o templo maior, mais bonito e moderno, o melhor programa de rádio e televisão, o maior número de dizimistas, o maior número de membros, a melhor banda, o melhor coral, etc.


IV. A obra social não cabe no sistema capitalista

Atividades que não geram receita, status, fama, não cabem no sistema capitalista. Igrejas evangélicas têm conquistado atualmente um espaço fenomenal na política, na sociedade e na economia. Os patrimônios das igrejas são de dar inveja a muitas instituições. A receita gerada pelos dízimos, ofertas e contribuições são notáveis, (claro que me refiro de maneira genérica e não específica).


Mas ao mesmo tempo em que vemos o enriquecimento das igrejas e seus templos, quase não se percebe uma construção sólida no campo social. Crentes precisam freqüentar a “santa” casa de misericórdia, pois quase não há hospitais evangélicos; nossas crianças participam da festa de “São João” e Halloween, pois onde estão os colégios cristãos?! Tantos e tantos cristãos mendigam as ajudas do tipo “fome zero”, ou então pegam seu quilo na igreja – quilo de alimento na maioria das vezes doado por algum outro membro da igreja, já que nesse tipo de campanha as igrejas não gastam nenhum centavo dos dízimos e ofertas –. Procuremos então pelos asilos, orfanatos, casas de recuperação, etc. Mesmo onde se encontra este tipo de trabalho, comparemos a proporção de dinheiro gasto com embelezamento dos templos, viagens tolas e inúteis, para alguém pregar em Israel (e dizer que esta falando de onde Jesus estava) ou ir lá buscar uma terrinha santa, com o que se tem feito em beneficio social.


V. O que fazer?

Essa é a nossa sociedade da qual somos, e é dela que vêm os membros de nossas igrejas, e os pastores que a administram. Logo como devemos lidar com um público que tem buscado as igrejas para tais fins capitalistas? E como ser um líder entre tantos líderes contaminados pela ideologia capitalista?


VI. Um líder bíblico.

Primeiramente devemos ser bíblicos. O que quero dizer é que o líder cristão é aquele que vai ser modelo de seus seguidores, e estes devem ver um exemplo bíblico a ser imitado:


“Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre. Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e estranhas, porquanto o que vale é estar o coração confirmado com graça e não com alimentos, pois nunca tiveram proveito os que com isto se preocuparam.” (Hb 13. 7 – 9).


Qual é a forma bíblica de se relacionar com Deus? O líder é aquele que deve apontar para seus seguidores tais maneiras. Devemos questionar se nossas orações, cultos, modo de dizimar e ofertar, louvores tem sido genuinamente bíblicos.


A liderança precisa ter as respostas. A responsabilidade de liderar é muito grande, pois o líder guia, conduz e faz um povo, ou seja, colabora diretamente para a forma de pensar das suas ovelhas.


“Primeiramente, nós somos cristãos porque somos de Cristo. Se somos cristãos, a referência é Cristo, e não há nenhum outro. Não é um homem, nenhum apóstolo secundário, não é um missionário fabuloso que viveu na Índia – é Jesus a Referência.

Em segundo lugar, nós somos evangélicos. E, se somos evangélicos, é porque vivemos de acordo com o Evangelho. De maneira que a referência de Jesus e do Evangelho está diante de nos.” (FABIO, 1997, p.107)


Qual tem sido a base do nosso ensino? Em que fundamentamos ou tiramos as conclusões que despejamos sobre as vidas que nos foram confiadas?


Não podemos aceitar sermos como os demais somente porque os pastores antes nós eram assim. Não podemos baixar a cabeça diante de um pensamento predominante, antes colocá-lo em xeque diante da Escritura Sagrada. E esse foi o ponto chave da Reforma Protestante!


VII. Um líder que não teme dizer a Verdade

Muitos líderes cristãos até tem consciência da realidade, porém não a denuncia abertamente, pois temem o esvaziamento de suas congregações. Outros usam do pensamento capitalista para povoarem suas igrejas de maneira fácil. Campanhas de cura e prosperidade são grandes atrativos! É mais fácil gerar uma balança financeira favorável no sistema capitalista, pois dar dízimos, oferta e fazer votos visando enriquecimento ou benefícios materiais são incentivos melhores do que uma proposta simples de gratidão e amor a causa da obra de Deus.

Entretanto observemos as palavras de nosso Senhor:


“e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8.32)

Notemos que não é a verdade que liberta, mas o CONHECIMENTO DA VERDADE. Somente quando esta verdade se torna conhecida, ou seja, quando um indivíduo toma consciência dela é que ele se torna liberto.


“Permanecer nas palavras de Jesus significa aderir ao seu ensino – orientar a vida por ele. O poder com que ele falava já levara alguns dos seus ouvintes a crer nele, mas ser discípulo é algo constante; é um estilo de vida. Um discípulo verdadeiro esta em sintonia com a instrução de seu mestre, e a aceita, não cegamente, mas com inteligência. A instrução do mestre torna-se regra de fé e pratica do discípulo (...). uma crença falsa mantém a mente das pessoas em escravidão; a verdade a liberta. A verdade, por sua própria natureza, não pode ser imposta de fora, nem pode ser autenticada por algo fora dela. Ou vemos a verdade pelo o que ela é, ou não.” (BRUCE, 1997, p. 173).


Meditemos na atitude de Jesus diante da possibilidade de ter uma multidão favorável, mas que não conhecia a verdade, Jo 6. 22 – 70.


Era uma multidão, que estava atrás de Jesus por causa do pão multiplicado – como muitas igrejas hoje. Mas para Jesus o mais importante era que eles conhecessem a verdade. Quando ele a expôs, quase todos o deixaram, vv. 60 e 66. Porém os que ficaram “conheciam” realmente a verdade, vv.68 e 69. (note a palavra temos crido e conhecido, v.69).


VIII. Um líder comprometido com a causa social

Esse é campo difícil, árduo e que provavelmente não resultará em louvor, status e retorno econômico, antes são sinônimos de gastos financeiros, demanda de tempo e acúmulo de preocupações e mais problemas. Mas um verdadeiro líder acima da média deve cumprir esta exigência.


Mais uma vez quero me reportar à parábola do bom samaritano e seu contexto:


E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo. (Lc 10. 25 – 37, negrito meu).


Primeiramente notemos que a lição é aplicada a um líder em Israel, um interprete da Lei. E segundo, teologicamente, como afirma o próprio Jesus, ele respondeu corretamente. Mas ainda lhe faltava praticar aquela verdade conhecida. Assim como o Jovem rico para quem Jesus disse “Uma coisa ainda te falta: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me.” Lc 19.22. Um líder desatento com as causas sociais que o cerca pode muito bem ouvir de Cristo, “ainda te falta uma coisa” e “vai procede tu de igual modo”.


O pastor Martin Luther King, (premio Nobel da Paz, 1964), assim visualizou a igreja:



No meio de uma luta ingente para livrar nossa nação da injustiça social e racial, ouvi muitos pastores afirmarem: ‘Esse são problemas sociais com que o Evangelho realmente não se preocupa’. Observo que muitas igrejas se comprometeram com uma religião inteiramente além-mundo, que estabelece estranha diferença, contraria à Bíblia, entre corpo e alma, entre o sagrado e o profano. (...) Andei pelo Alabama e pelo Mississipi e por todos os estados sulinos. Nos dias sufocantes de verão e nas manhãs frescas do outono, contemplei as belas igrejas do Sul, com suas torres altivas apontando para o céu, e verifiquei os sólidos perfis dos edifícios de educação religiosa. Repedidas vezes ponho-me a indagar: ‘Que tipo de gente ora aqui? Quem é o seu Deus?’”. (MONTEIRO, 1988, p. 32)


Cabe aqui ressaltar que Luther King, (exemplo de liderança, diga-se de passagem) viu os problemas sócias associados ao capitalismo:


“Tantos problemas da América Latina têm raízes nos Estados Unidos, que precisamos formar um movimento sólido, unido, concebido executado pacificamente, de modo que a pressão recaia sobre a estrutura de poder capitalista e governamental, de ambos os lados do problema ao mesmo tempo” (MONTEIRO, 1988, p. 88)


Pastores não se cansam de exortar a igreja sobre o dízimo usando Ml 3. 7 – 11. Mas os mesmo dificilmente falam que de três em três anos os dízimos (o segundo dízimo) não eram levados para o templo, mas utilizado na ajuda para os pobres, levitas, órfãos, estrangeiros e à viúva Dt 14. 28 e 29; 26.12.


Infelizmente temos tido na maioria das vezes uma liderança como descreve Tiago 2.15 – 17.


“Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.”


Hoje muitos líderes dizem às irmãs que pedem ajuda para comprar um remédio, “ora que Jesus cura”, e para o irmão desempregado que precisa de ajuda para comprar comida, “faz a campanha que a porta abre”.


A igreja de Atos não tinha nenhum necessitado não era por causa da grande cruzada de curas e prosperidade do apóstolo Pedro, ou devido a campanha das portas abertas do apóstolo Tiago, mas:


Nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.” (Atos 4. 34 e 35 – negrito meu).


Precisamos de uma liderança que pense socialmente, que faça algo pelos abandonados, oprimidos e necessitados. Esse é o verdadeiro marketing que precisamos para as pessoas enxerguem o amor de Deus em nós. Não é trombetear boas obras, Mt 6.1-3, mas tornar evidente um evangelho prático.


Precisamos ler e reler a biografia de Jorge Muller, e pedirmos a Deus líderes com o ideal daquele verdadeiro cristão.


Não existe melhor história para ilustrar o que quero dizer do que a contada pelo próprio Jesus:


“Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me. E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos? Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.” (Mt 25. 34 – 46, negrito meu).


IX. Consideração final sobre os males do capitalismo.

Palavras como competição, individualismo, acúmulo de riquezas como objetivo de vida, materialismo, exploração, consumismo, etc., não estão de acordo como os princípios do Evangelho. Mas temos uma sociedade, consciente ou inconscientemente, envolvida com essas idéias. Esse público é o “material de trabalho” da liderança cristã, que deve libertar pelo conhecimento da verdade:


“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.2).


O pensamento de Cristo em muito contrasta com o pensamento capitalista, e um líder eficaz é aquele que sente as dores de parto até que Cristo seja formado nos seus liderados, Gl 4.19.

Sendo assim o grande desafio de quem almeja ser um líder eficaz é primeiramente se desprender de toda forma de pensar capitalista que não se molda ao evangelho. E segundo como lidar com uma sociedade capitalista. E ainda, como transformar um povo que se formou capitalistamente, em um povo que pensa evangelicamente.

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X. Bibliografia

BOFF, Leonardo. Novas Fronteiras da Igreja: o futuro de um povo a caminho. Ed. Verus, Campinas SP, 2004.

BRUCE, F.F. João. Edições Vida Nova, São Paulo, SP. 1997.

FURTADO, Celso. O Capitalismo Global. Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, RJ. 1998.

KOOGAN e HOUAISS. Enciclopédia e Dicionário Ilustrado. Edições Delta, Rio de Janeiro, RJ. 1999.

MONTEIRO, Irineu. O Pensamento Vivo de Martin L. King. Martin Claret Editores, São Paulo, SP. 1988.

MORLRY, Patrick M. O Homem de Hoje. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1995.

FABIO, Caio. Igreja Crescimento Integral. Ed. Vinde, Rio de Janeiro, RJ. 1995

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A carta escrita por Jesus


O documento abaixo foi escrito por Eusébio de Cesareia, bispo da igreja cristã de Cesareia; historiador conhecido e respeitado do fim da Antiguidade (265 – 339). Sua obra mais conhecida foi a “História Eclesiástica”, onde ele tentou escrever a história da igreja, dos apóstolos aos seus dias.


O mais curioso de suas pesquisas, seria a carta que Jesus teria escrito de próprio punho, que foi encontrada por ele, e transcrita em sua obra. É claro que é difícil comprovar a veracidade da história, mas devemos no mínimo conhecê-la e considerar que ele (entre os séculos III – IV) estava em questão de tempo muito mais recuado aos dias de Jesus que outros historiadores cristãos. Ainda podemos considerar que dificilmente encontraremos uma discrepância teológica entre os evangelhos e este documento especifico.


Obs: o apóstolo Tomás, que Eusébio se refere, seria o apóstolo Tomé.



DOCUMENTO

(Da obra História Eclesiástica, Livro I, XIII, Eusébio de Cesareia)


[Relato sobre o rei de Edessa]


1. O relato acerca de Tadeu[1] é como segue. A fama da divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, devido ao seu poder milagroso, alcançou a todos os homens, e com a esperança de cura de suas enfermidades e moléstias de toda espécie, atraía a inumeráveis pessoas que habitavam inclusive no estrangeiro, muito longe da Judéia.

2. Nestas condições se achava o rei Abgaro, que reinava excelentemente sobre os povos do outro lado do Eufrates e tinha seu corpo destroçado por uma doença terrível e incurável para o poder humano. Assim que chegaram a ele notícias recorrentes sobre o nome de Jesus e os milagres unanimemente testemunhados por todos, converteu-se em seu suplicante, enviando um mensageiro com uma carta na qual pedia para ver-se livre da enfermidade.

3. Mas Jesus não atendeu de imediato a seu chamamento. Mesmo assim, fez-lhe a honra de uma carta de próprio punho e letra na qual prometia enviar-lhe um de seus discípulos que o curaria da enfermidade e ao mesmo tempo levaria a salvação para ele e para os seus.

4. Não passou muito tempo sem que Jesus cumprisse sua promessa. Depois de sua ressurreição de entre os mortos e de sua ascensão aos céus, Tomás, um dos doze apóstolos, movido por Deus, enviou à região de Edessa Tadeu - que também era um dos setenta discípulos de Cristo - como arauto e evangelista da doutrina de Cristo, e por meio dele se cumpriu o que o Sal­vador havia prometido.

5. Temos de tudo isto testemunho escrito, tirado dos arquivos de Edessa, que naquele tempo era a corte. Nos documentos públicos que neles se guardam e que contém os feitos antigos e dos tempos de Abgaro, encontra-se também o referido testemunho, conservado deste então e até hoje. Mas nada melhor do que ouvir as próprias cartas que tiramos dos arquivos e que, traduzidas do siríaco[2], dizem textualmente como segue:

Cópia da carta escrita por Abgaro, toparca, a Jesus e enviada a Jerusalém pelo mensageiro Ananías.

6. "Abgaro Ucama[3], toparca, a Jesus, o bom salvador que surgiu na região de Jerusalém, saudações: Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e demô­nios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.

7. E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Deus, que descendo pessoalmente do céu realizas estas mara­vilhas, ou és filho de Deus, já que fazes tais obras.

8. Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois[4]."

9. Esta é a carta que Abgaro escreveu, iluminado então por um pouco de luz divina. Mas será bom que escutemos a carta que Jesus enviou a ele pelo mesmo correio, carta de poucas linhas, mas de muita força, cujo teor é o que segue:

Resposta de Jesus a Abgaro, toparca, por meio do mensageiro Ananías.

10. "Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas, acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou[5]. Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença
e trará a vida a ti e aos teus."

11. A estas cartas estava anexado ainda, em siríaco, o seguinte:

"Depois da ascensão de Jesus, Judas, chamado também Tomás, enviou-lhe como apóstolo a Tadeu, um dos setenta, o qual chegou e se hospedou na casa de Tobías, filho de Tobías. Quando se espalhou a notícia sobre ele, avisaram a Abgaro que havia chegado ali um apóstolo de Jesus, como tinha sido descrito na carta.

12. Começou pois Tadeu, com o poder de Deus[6], a curar toda enfermidade e fraqueza, ao ponto de todos se admirarem. Mas, quando Abgaro ouviu falar dos prodígios e maravilhas que operava e de que também curava, veio-lhe a suspeita de se seria o mesmo do qual Jesus falava na carta, ali onde dizia: Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença.

13. Fez pois chamar a Tobías, em cuja casa se hospedava, e lhe disse: Tenho ouvido dizer que veio certo homem poderoso e que se aloja em tua casa. Traga-o a mim. Foi-se Tobías para junto de Tadeu e lhe disse: O toparca Abgaro mandou chamar-me e me ordenou que te levasse até ele para que o cures; e Tadeu respondeu-lhe: Subirei, posto que fui enviado a ele com poder."

14. "No dia seguinte Tobías madrugou, e tomando consigo a Tadeu, foi até Abgaro. Entrou Tadeu, estando ali presentes de pé os nobres do rei, e no momento de fazer sua entrada, uma grande visão apareceu a Abgaro no rosto do apóstolo Tadeu. Ao vê-la, Abgaro se prosternou ante Tadeu, deixan­do em suspenso todos os que o rodeavam, pois eles não haviam contemplado a visão, que só se mostrou a Abgaro.

15. Este perguntou a Tadeu: És tu em verdade discípulo de Jesus, o filho de Deus, o que me disse: te mandarei algum de meus discípulos que te curará e te dará vida? E Tadeu respondeu: Porque é muito grande a tua fé naquele que me enviou, por isso fui enviado a ti. E se ainda crês nele, segundo a fé que tenhas, assim verás cumpridas as súplicas de teu coração.

16. E Abgaro respondeu-lhe: de tal maneira cri nele, que quis tomar um exército e aniquilar os judeus que o crucificaram, se não me tivesse feito desistir o medo ao Império romano. E Tadeu lhe disse: Nosso Senhor cumpriu a vontade do Pai, e uma vez cumprida, subiu ao Pai.

17. Disse-lhe Abgaro: Também cri nele e em seu Pai, e Tadeu disse: Por isto vou pôr minha mão sobre ti em seu nome. E assim que o fez, no mesmo instante curou-se o rei de sua enfermidade e das dores que tinha.

18. E Abgaro se maravilhou, porque tal como tinha ouvido dizer sobre Jesus, assim acabava de experimentar de fato por obra de seu discípulo Tadeu, que o tinha curado sem remédios nem ervas. E não somente a ele, mas também a Abdon, filho de Abdon, que sofria de gota e que, aproximando-se também de Tadeu, caiu a seus pés, suplicou com suas mãos e foi curado. E muitos outros concidadãos curou Tadeu, operando maravilhas e proclamando a palavra de Deus.

19. Depois disso disse Abgaro: Tadeu, tu fazes estes milagres com o poder de Deus, e nós ficamos maravilhados. Mas eu te rogo que também nos dês alguma explicação sobre a vinda de Jesus, como foi, e também sobre seu poder: em virtude de que poder operava ele os prodígios de que ouvi falar.

20. E Tadeu respondeu: Agora guardarei silêncio. Mas amanhã, já que fui enviado para pregar a palavra, convoca em assembléia todos teus concidadãos, e eu pregarei diante deles, e neles semearei a palavra da vida: sobre a vinda de Jesus: como foi; e sobre sua missão: por que o Pai o enviou; e sobre seu poder, suas obras e os mistérios de que falou no mundo: em virtude de que poder realizava isto; e sobre a novidade de sua mensagem, de sua humildade e humilhação: como se humilhou a si mesmo depondo e reduzindo sua divindade, e como foi crucificado e desceu ao Hades, e fez saltar o ferrolho que desde sempre prevalecia e ressuscitou mortos, e como, tendo descido só, subiu a seu Pai com uma grande multidão.

21. Mandou pois Abgaro que ao amanhecer se reunissem todos seus cidadãos e que escutassem a pregação de Tadeu, e ordenou que lhe dessem ouro e prata sem poupar. Mas ele não o aceitou e disse: Se deixamos o nosso, como poderíamos tomar o alheio?

Corria o ano de 340.[7]

22. Baste para o momento este relato, que não será inútil, traduzido literalmente da língua Siríaca.




[1] Cf. 12:3.

[2] Eusébio provavelmente copiou os documentos já traduzidos anteriormente.

[3] Abgaro o Negro.

[4] Gn 19:20.

[5] At l:2-ss.;Jo 16:5.

[6] Mt 10:1.

[7] Isto seria os anos 28-29 d.C; o texto segue a Era Selêucida, iniciada em 1º de outubro de 312a.C.