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A questão árabe-israelense

Primeiramente, o que vem a mente ao discutir a questão árabe israelense, é que o imperialismo estadunidense tem usado e favorecido Israel. Outros dirão ainda, que os árabes por meio do terrorismo, têm desafiado o mundo ocidental. Porém, é claramente perceptível pelas leituras de Michel Treigner, Edward Said, entre outros, que tais concepções muitas vezes não passam de senso comum, ou uma análise bem superficial de um tema tão complexo.

Alguns têm objetado que o anti-semitismo tem sido explorado pelos judeus para auto beneficio, e que na verdade o ódio ao judeu não existe, antes é um produto de manipulação imperialista. Entretanto a questão tem suas raízes históricas profundas.

Alguém já argumentou que a Paz no Oriente só virá com o fim do Estado judeu, e que o problema esta na criação do Estado de Israel. Eu diria que é muita ignorância abreviar o dilema para 1948, quando poderia ser estendido a quase DOIS MIL anos atrás, quando a nação de Israel foi destruída no ano 70.

Flávio Josefo, consagrado historiador, que presenciou o cerco romano liderado pelo general Tito, descreve a cena: “Foram feitos prisioneiros durante esta guerra noventa e sete mil homens e o assédio de Jerusalém custou a vida de um milhão e cem mil homens” (Capitulo 45, nº. 498). No nº 499 do cap. 46, ele prossegue, “parece, pelo que eu acabo de dizer, que nenhum acidente humano, nem flagelo algum mandado por Deus, jamais causaram a ruína de um tão grande número de pessoas, como o dos que pereceram pela peste, pela fome, pelas armas e pelo fogo, durante este grande cerco, ou que foram levados como escravos pelos romanos. Os soldados rebuscaram até nos esgotos e nos sepulcros, onde mataram a todos que estavam ainda vivos e desses encontraram ainda mais dois mil que se haviam matado uns aos outros ou a si mesmos, ou que tinham sido mortos pela fome”.

O imperialismo (ainda que não na concepção capitalista) oprimiu e tentou exaurir o povo judeu diversas vezes, como a Assíria que no século VII a.C levou cativo o povo do Reino do Norte (parte norte do território dos judeus, que foi dividido em dois reinos, Norte e Sul, após o governo de Salomão); a Babilônia que no século VI a.C, destruiu Jerusalém e o Templo, e levou cativo o Reino do Sul; os Gregos, que sob Antíoco IV Epifanes, profanou o Templo judeu, colocando ali a estátua de Zeus; os romanos, que já citamos; o Império Católico Romano que, na Idade Média, dirigiu sua fúria contra os judeus na Inquisição matando centenas de milhares; os protestantes que muitas vezes também difamaram os judeus – o próprio Lutero, escreve em 1543, “Dos judeus e suas mentiras” (FISCHER, 2006, p. 51) – e a culminação no Holocausto da Segunda Guerra, onde o historiador Eric Hobsbawn, mostra que o anti-semitismo vinha se estabelecendo desde longa data (Era dos Extremos, pp. 123, 124).

Hoje é indiscutível que o imperialismo americano se aproveita de alianças com Israel, para atingir finalidades econômicas na região árabe, a mais próspera do mundo em petróleo. Mas a realidade é que, como mostra Michel Freignier, os imperialistas, sempre buscaram o auto beneficiamento, e os judeus e árabes não deixaram de ser periféricos em seus planos. A Inglaterra (A grande potência do século XIX e inicio do XX) prometia, em 1915, a construção do Grande Reino Árabe, ao mesmo tempo em que pretendia retalhar o mundo árabe – com o fim do império Otomano – entre França e Rússia, e já negociava com os judeus a criação de um lar na Palestina. Porém, com o desenvolvimento petrolífero na região, os ingleses se aliaram mais aos árabes: “A Grã-Bretanha, que até então adotara uma política tortuosa para alcançar algum equilíbrio entre as duas comunidades, parecia cada vez mais favorável aos árabes. Essa atitude tinha motivos econômicos (preservar os interesses petrolíferos) e estratégicos (afastar os países do Oriente Médio da tentação de se aproximarem da Alemanha)” (FREIGNIER, p. 25).

O movimento sionista ganhava força desde o final do século XIX, e com o crescimento do nazismo na Europa, o fluxo judeu para a palestina aumentara, o que provocou a reação árabe, que temia a dominação judaica, usando muitas vezes de violência. O anti-semitismo entre árabes (não todos) é fato, tanto que “uma parte dos árabes tinha simpatia pelas potências do Eixo (Alemanha e Itália), pois viam numa possível vitória alemã a oportunidade de se livrar da tutela britânica, e de eliminar a presença judaica da Palestina”. (FREIGNIER, p. 26).

A Liga Árabe, que tinha a finalidade de “afirmar a unidade do mundo árabe em frente dos apetites imperialistas e da ameaça sionista” (FREIGNIER, p. 26), foi patrocinada pela potência Britânica.

Entretanto o Estado de Israel, em 1948, foi criado com a aprovação dos EUA, que visava o lugar da Inglaterra como a grande potência dominante do Oriente. Porém, apenas um dia após, a Liga Árabe, tentou liquidar o Estado judeu. Em resposta, os israelenses, se organizaram e conquistaram brilhante vitória. Dessa precipitação árabe, que gerou o “primeiro” conflito árabe-israelense, os grandes prejudicados foram os palestinos que viram começar a ficar inviável (até hoje) a criação de seu Estado. Se hoje, verdadeiramente se discute a questão do sofrimento dos inúmeros refugiados palestinos, não se pode esquecer, que a primeira guerra promovida pela Liga Árabe, levou milhares de árabes a saírem da região israelense, e “700 mil imigrantes judeus (a maioria refugiados provenientes de países árabes)” (FREIGNIER, p. 30), a irem para Israel.

A guerra dos Seis Dias, 1967, mais uma vez iniciada pelos árabes, e mais uma vez vencida pelos judeus, que ainda não era uma potência militar, mas como observa o próprio autor “um país pequeno entregue ao sarcasmo” (FREIGNIER, p. 37), intensificou o conflito palestino-israelense. Somente na década de 70, Israel passou a ser visto como potência militar.
Com os judeus dominando militarmente toda a região da Palestina, e com a Liga Árabe nunca dando o braço a torcer para reconhecer o Estado de Israel, ficava cada vez mais impossível o surgimento de um Estado Palestino.

Na década de 1960, “um dos maiores trunfos dos EUA” (FREIGNIER, p. 37), não era Israel, mas o Irã, inimigo mortal de Israel.

Os países árabes, que aspiravam, décadas atrás por uma maior unidade árabe, com o desenvolvimento petrolífero, se dividiram, tanto que os próprios palestinos entraram em conflito na década de 70 com a Jordânia (ainda que não por motivos petrolíferos), provocando um milhão de refugiados. Estes – organizados pela OLP – foram acolhidos pelo Líbano, mas os próprios palestinos provocaram uma guerra civil no Líbano.

Por fim, a complexidade dos conflitos árabe-israelenses, e a questão da Palestina, não devem ser analisadas apenas pelo presente. Israel hoje é apoiado pelos imperialistas, mas já os foram os árabes. O Estado de Israel foi criado pelos imperialistas, mas já o foi destruídos (várias vezes) por imperialistas. Os árabes, muitas vezes fazem uso de ataques terroristas, mas também já o fizeram os judeus (inclusive contra ingleses). Israel, hoje é uma potência bélica, que sem misericórdia massacram árabes, mas quase todos os países árabes já estiveram reunidos contra Israel, quando este não passava de um insignificante recém criado Estado. Hoje, os judeus não reparam a violência contra os palestinos, mas autoridades árabes já até mesmo realizaram conferências negando o Holocausto. O que temos é um mundo de contradições e paixões, capitalismo e religiões, e um emaranhado histórico difícil de seguir e descobrir precisamente, detalhadamente as suas origens. Certamente impossível de ser compreendido apenas a partir de um pensamento ideológico, seja favorável ao judeu, ou ao palestino, ou seja até mesmo neutro; todas as partes devem ser consideradas, desde a análise materialista, as explicações religiosas, do presente ao mais profundo passado que nos seja permitido alcançar. Somente assim, poderem talvez, não fazer injustiça a nenhum dos lados envolvidos.


BIBLIOGRAFIA:

1. TREIGNIER, Michel. Guerra e Paz no Oriente Médio. Ed. Ática, 1994, São Paulo SP.
2. SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. Companhia das Letra, 2005, São Paulo. SP.
3. JOSEFO. História dos Hebreus. CPAD, 2000, Rio de Janeiro, RJ.
4. HOBSBAWM. Eric. A Era dos Extremos. 2003. São Paulo. SP.
5. FISCHER. J.H. Reforma Renovação da Igreja Pelo Evangelho. São Leopoldo, RS, Sinodal, 2006.



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