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domingo, 14 de novembro de 2010

O ROMEIRO, O VENTO E O SOL



O ROMEIRO, O VENTO E O SOL

Consegue-se às boas, mansamente, o que se não consegue a mal, à força, de repelão. A melodia de uma flauta abre mais janelas do que uma trovoada.

Vou exemplificar.

O Senhor Vento e o Senhor Sol, lá do seu miradoiro, observam o que se passa cá em baixo. Os dois dispensam binóculos.

Estavam eles entretidos, na sua quadrilhice de varanda, quando viram um romeiro, daqueles que percorrem a pé os caminhos que vão dar à Galega Compostela.

Ia de chapeirão e larga capa, que o cobria até aos pés.

Nodoso cajado de ajudar às subidas, um saquitel ao ombro e a cabeça à cintura, para o vinho que aquece, eis o quadro completo do devoto de São Tiago, o Apóstolo, com catedral famosa na cidade de Compostela.

– Aquele, ali, todo embiocado, que nem se percebe quem será, se é velho, se é novo, se é loiro, se moreno, está a irritar-me – disse o Senhor Vento, muito dado a caprichos.

– Aposto que é novo e moreno – disse o Senhor Sol, por desfastio.

– Pois eu acho o contrário. O homem é velho e branco de cabelo, que já foi loiro – apostou o Senhor Vento. Mas já vamos ver isso. Eu sopro com toda a força e descubro-o.

– Aposto que não resulta – contrapôs o Senhor Sol, divertido com o passatempo.

Levantou-se uma ventania de dobrar as árvores. O romeiro fincou-se ao cajado, puxou o chapéu para a cara e apertou a capa. Por mais que o Senhor Vento soprasse não houve meio de derrotar o viandante.

– Primeira aposta perdida – riu-se o Senhor Sol.

Ele a rir e seus raios a brilharem com mais alegria e calor. O Senhor Sol arredou umas nuvenzitas e concentrou toda a sua atenção sobre o romeiro, que seguia estrada fora, no passo firme de quem não pode faltar ao encontro.

Santiago esperava-o.

O Senhor Sol não o largava.

À beira de uma fonte, o caminheiro parou. Desfez-se do chapeirão, que poisou com a capa e o cajado no rebordo do fontanário, despiu a camisa e, de tronco nu, refrescou rosto e corpo, na água que corria. Delicado.

Era loiro e jovem.

– Desta vez não ganhou ninguém – concluiu o Senhor

Vento.

– Ganhou ele – disse o Senhor Sol, apontando o moço, que passava um lenço a escorrer água pela cara e pelos ombros. – E, embora tenha apostado que ele era moreno, eu acho que também já ganhei o dia.

E, com todos os seus costumados vagares, o Sol começou a preparar as cores do entardecer.

FIM


Texto de António Torrado


A fábula acima ilustra bem a verdade do texto bíblico:


“Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.” Zacarias 4.6

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