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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fragmentos heréticos





Fragmentos heréticos
 
Ricardo Gondim


Mal-aventurado o africano
porque a humanidade lhe ensinou a pescar
no rio do desengano.
Desgraçado o que sabe descansar
no colchão desumano
onde piolhos picam até cansar.
Mal-aventurada a mãe que chora
no morro do Rio de Janeiro;
é ela que, em toda hora,
contempla o rés do chão ligeiro,
para ela não haverá desforra,
Nenhum cavalheiro
lhe fornecerá o lenço
para suavizar a face
que a lágrima acalora.
Mal-aventurado o velho
que jaz alucinado
na suja enfermaria sem espelho;
por toda eternidade
ele se imagina aprisionado,
vendo escaravelho
no lustre empoeirado.
Mal-aventurados os generais
que festejam seus faustos feitos;
eles sorvem um vinho pleno de ais;
sem felicidade nos coitos
sabem que suas mulheres são iguais
às meretrizes menos genais.
Mal-aventurados os religiosos
que das verdades fazem dardos
e com elas proferem males rancorosos.
Eles condenam seus convertidos
a viverem como eternos medrosos.
Bem-aventurados os que se contentam com a vida;
eles aceitam qualquer migalha divina
como bênção dividida.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de beleza;

eles caminharão como filhos de poetas,
comerão seus versos na sala da realeza
e só eles perceberão na graúna
partituras completas.
Bem-aventurados os trapezistas
que no circo se balançam perigosamente;
eles nos tiram as vistas
pois somos pobres ilusionistas
que também nos penduramos em fitas
esperando despencar subitamente.

Bem-aventurados os maratonistas

que correm sem esperança de prêmio;
eles buscam suas metas
só pela alegria das conquistas.

Bem aventurados os impotentes;

que se sabem incapazes de amar,
só eles se enxergam carentes
e só neles o Espírito se vai derramar.

 
Soli Deo Gloria.

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