O canto da sereia que habita em mim

 O canto da sereia que habita em mim

 



"Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo."
Gênesis 4.7

 

Na Odisseia, de Homero, um dos episódios mais conhecidos narra o momento em que Odisseu (Ulisses, na tradição latina) e seus companheiros precisam atravessar uma região cercada por rochedos onde habitavam as sereias. Diferentemente da imagem popularizada pelos contos modernos e pelos filmes da Disney, as sereias da tradição grega eram criaturas monstruosas. Seu maior poder não estava na aparência, mas na voz. Seu canto exercia um fascínio irresistível sobre os navegantes: aqueles que o ouviam tinham a razão obscurecida, esqueciam seu destino, abandonavam a rota segura e conduziam seus navios contra as pedras, onde encontravam a morte e se tornavam presas das sereias.

O canto das sereias não era violento. Não obrigava ninguém a mudar de direção. Não ameaçava, não gritava, não impunha. Apenas cantava.

Talvez seja justamente essa a natureza mais profunda da tentação. O mal raramente se apresenta como mal. Ele canta. Seduz. Promete conhecimento, prazer, reconhecimento, poder ou satisfação. Faz parecer que existe algo indispensável logo à frente, algo que não pode ser perdido. Seu poder não está na força, mas no fascínio.

Na Odisseia, quem ouvia o canto das sereias deixava de enxergar o destino. Toda a atenção era capturada pela promessa imediata. O resultado era inevitável: o navio abandonava a rota e encontrava a morte entre os rochedos.

As Escrituras descrevem um movimento semelhante. Desde o Éden, a serpente não começou com uma proibição, mas com uma promessa: "Sereis como Deus" (Gn 3.5). A tentação sempre tenta convencer o coração de que a vida verdadeira está fora da vontade de Deus.

O pecado possui uma voz. Ele não grita como um tirano, mas sussurra como um amigo. Não impõe; persuade. Não arrasta; seduz. É exatamente por isso que é tão perigoso.

O pecado possui uma voz. Ele fala aos desejos, alimenta o orgulho, desperta a curiosidade desordenada e oferece atalhos para aquilo que Deus deseja conceder por outro caminho. Por isso Tiago afirma que cada um é atraído e seduzido pela própria cobiça (Tg 1.14). O canto encontra eco quando existe um coração disposto a escutá-lo.

Odisseu sabia que não era forte o suficiente para resistir apenas pela força de vontade. Por isso pediu que o amarrassem ao mastro do navio. Mesmo desejando ser solto, seus companheiros não atenderiam ao seu pedido.

Há uma profunda sabedoria nessa cena. O ser humano precisa de mais do que boas intenções; precisa de estruturas que o mantenham firme quando sua vontade vacila. A disciplina espiritual, a comunhão da igreja, a Palavra de Deus, a oração e a ação do Espírito Santo são, por assim dizer, as cordas que nos ajudam a permanecer firmes quando o coração deseja seguir toda voz sedutora.

E essa voz encontra eco justamente em nosso interior. Tiago nos lembra que somos tentados pela nossa própria cobiça:

"Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte."
Tiago 1.14-15

A velha natureza torna-se cúmplice das sereias; aquilo que elas cantam do lado de fora desperta desejos que já habitam o lado de dentro.

Ainda podemos ouvir a mesma advertência que recebeu Caim, parafraseando: "A sereia jaz aos ouvidos do coração; os seus encantos serão contra ti, mas a ti cumpre prender-te à cruz de Cristo."

Entretanto, ainda existe um canto mais poderoso, capaz de sobrepujar a melodia das sereias. Há outras vozes, mais belas e mais doces, mas elas precisam ter a primazia em nossas vidas.

Disse Jesus:

"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem."
João 10.27

Sendo assim, se a sereia canta e tenta desviar nosso foco, ouça a voz de Jesus e oriente-se por ela.

Mas a advertência continua, pois enganoso é o nosso coração:

"Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração como foi na provocação, no dia da tentação no deserto, onde os vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, e viram as minhas obras por quarenta anos. Por isso, me indignei contra essa geração e disse: Estes sempre erram no coração; eles também não conheceram os meus caminhos. Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso."
Hebreus 3.7-11

Assim como os marinheiros encantados pelas sereias abandonavam sua rota, Israel, seduzido pela incredulidade e pela murmuração, desviou-se do caminho da promessa. Não foram monstros marinhos que impediram sua chegada ao descanso, mas um coração endurecido que deixou de ouvir a voz de Deus.

Não é porque Homero conhecesse o evangelho. É porque os grandes mitos frequentemente captam aspectos profundos da condição humana. A Escritura, porém, vai além: ela não apenas diagnostica o fascínio da tentação, mas revela o único caminho para vencê-la em Cristo.

A vida cristã não consiste apenas em aprender a dizer "não" às vozes que conduzem à morte, mas principalmente em aprender a dizer "sim" à voz daquele que conduz à vida.

O mundo continua cheio de sereias. Elas cantam por meio do consumismo, da busca incessante por reconhecimento, do poder, da sexualidade desvinculada da santidade, da idolatria do sucesso e até mesmo de falsas espiritualidades que prometem iluminação sem arrependimento. Todas possuem melodias diferentes, mas compartilham a mesma intenção: afastar o coração da comunhão com Deus.

Talvez o maior perigo nunca tenha sido o canto das sereias da Odisseia. O maior perigo é o canto da sereia que habita em nós mesmos, aquela voz que encontra abrigo em nossa cobiça e nos convence de que existe vida longe de Deus.

Mas existe uma voz maior. A voz do Bom Pastor continua chamando suas ovelhas. Quem aprende a reconhecê-la descobre que a verdadeira liberdade não consiste em seguir toda melodia que seduz, mas em permanecer no caminho daquele que conduz à vida eterna.

A pergunta decisiva não é se ouviremos vozes. Nós as ouviremos todos os dias. A verdadeira questão é: qual voz governa o nosso coração?

 

Alexandre L. M. Brandão

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